Porque esconder nossos rostos?

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O uso de máscaras em protestos surge da necessidade de segurança frente à coerção policial sofrida pelos movimentos sociais quando em situações públicas de resistência. Os rostos expostos em situações como esta favorecem a repressão, facilitando a criminalização dos sujeitos políticos que se colocam em oposição ao que baseia a sociedade desigual em que vivemos.
O registro fotográfico, ou em vídeo, das pessoas que fazem manifestações serve como indício para a polícia agir de modo a intimar e penalizar arbitrariamente os que estão simplesmente se recusando a viver sob os moldes do capitalismo. Os nossos registros na internet (caixas de email, perfis do Orkut e Facebook etc) também acabam sendo investigados, configurando assim um processo de perseguição em que o Estado aponta e se organiza para a ação de extermínio das forças que a ele se opõem. Dessa forma, as máscaras nos protegem, reservam a nós autonomia diante de nossas identidades.

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O Estado com sua máquina burocrática quer saber exatamente quem somos, onde moramos, aonde vamos e como vivemos para nos controlar. Prova disso é o projeto de lei 7393/10, proposto pelo deputado federal Marcelo Ortiz, que visou proibir o uso de máscaras em eventos sociais e de massa, impondo sanções ao seu descumprimento – além de todo o aparato de câmeras que temos instalado em nossas ruas e avenidas nos vigiando dia e noite, aonde quer que estejamos.
Curioso é que apesar de “autoridades” quererem proibir o anonimato, este é uma prática comum entre elas para se livrarem de responsabilidades. Para cometerem suas brutalidades em passeatas e protestos os policiais se infiltram, tiram os seus nomes dos uniformes e não deixam suas faces serem registradas, reagindo violentamente quando alguma lente se dirige a eles.

“É uma violência simbólica proibir o uso de máscaras. Dia 07 de setembro todos deveriam ir às ruas mascarados”- Caetano Veloso

“É uma violência simbólica proibir o uso de máscaras. Dia 07 de setembro todos deveriam ir às ruas mascarados”- Caetano Veloso

O anonimato se torna inevitável e imprescindível, no sentido de descentralizar a origem da ação, e para que ela não se esgote nela mesma. O ato de fechar avenidas, quebrar os ônibus das empresas de transporte não é um ato isolado, nele está contido a indignação de todos os que não estão de acordo com o sistema de transporte e organização urbana dos quais dependemos. Uma ação anônima em uma manifestação carrega consigo a força de uma construção coletiva. Ninguém é dono absoluto de um ato, este surge do processo de interação com várias pessoas e nesse sentido o anonimato é uma forma de não apropriação de uma causa que é pública.
É importante combater as falácias ditas pela mídia corporativa sobre o que ocorre nas manifestações. Se as pessoas não desfilarem letargicamente por caminhos patrulhados e previsíveis que não levam a lugar algum, serão então pintados vilões, vândalos, terroristas. Existem outras fontes e meios independentes de “ser mídia” que precisam ser fortalecidos.

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É urgente a necessidade de uma resistência cada vez mais forte, que imprima na realidade o que queremos dela, e removendo o que nos é imposto e que aceitamos por comodismo. As máscaras não servem de “esconderijo covarde” para os nossos rostos, como bem pregam as forças reacionárias, mas para expor o processo que nos levará à emancipação social como algo que só pode vir a acontecer por meio da ação coletiva autônoma. Sem rosto, sem líderes.

[Panfleto circulado no 2º protesto contra o aumento das passagens. Recife, 23.janeiro.2012]

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