Federação Anarquista Comunista – FCA

A Federação Anarquista Comunista foi uma das experiências organizativas mais marcantes do anarquismo francês no início do século XX, nascida da necessidade de dar corpo e coesão a um movimento até então disperso pela imprensa e por iniciativas locais. Fundada em novembro de 1910 como Federação Comunista Revolucionária (FCR), assumiu em julho de 1912 o nome Federação Comunista Anarquista (FCA) e, em agosto de 1913, tornou-se Federação Comunista Anarquista Revolucionária (FCAR). Seu percurso, porém, foi interrompido em agosto de 1914, quando a eclosão da Primeira Guerra Mundial dispersou militantes e redes.

A FCA surgiu como resposta à limitação de experiências anteriores, como a Federação Anarquista de Seine e Seine-et-Oise (1908) e a Federação Revolucionária (1909-1910), e consolidou-se rapidamente para além de Paris. No congresso regional de junho de 1911, já reunia delegados de diversos grupos urbanos e suburbanos, somando cerca de 400 membros. Ao adotar o nome FCA, reforçou sua identidade revolucionária e se aproximou de setores combativos da CGT, especialmente nos sindicatos da construção e metalurgia, mantendo diálogo com figuras como Léon Jouhaux e Georges Dumoulin.

O Congresso Nacional de agosto de 1913, realizado na Maison des Syndiqués em Paris, foi um marco: reuniu quase 130 delegados, unindo anarquistas comunistas, grupos autônomos e militantes do Les Temps Nouveaux. Debateram-se três eixos centrais: o papel do sindicalismo e da CGT, o antimilitarismo frente à ameaça de guerra e a posição frente ao individualismo anarquista. Dali nasceu a Federação Comunista Anarquista Revolucionária de Língua Francesa (FCRA), com um manifesto de oito pontos que reafirmava o antiparlamentarismo, a greve geral expropriadora e o antimilitarismo, rejeitando, porém, o slogan da deserção, e delimitando o campo ideológico do anarcocomunismo.

O antimilitarismo, aliás, foi uma das marcas mais ousadas da organização. Em 1912, diante da “lei dos três anos” e do risco de guerra europeia, a FCA apoiou publicamente jovens que se recusaram ao serviço militar, produziu milhares de cartazes e folhetos e defendeu abertamente a sabotagem de mobilizações militares. Essa postura rendeu prisões, exílios e vigilância constante, mas também consolidou sua imagem como vanguarda do combate libertário à guerra.

A tentativa de ampliar esse espírito a nível global se refletiu na proposta de um congresso internacional anarquista em Londres (1914), que contaria com delegados de 21 países. A guerra, contudo, frustrou a iniciativa. A repressão, as prisões e o alistamento compulsório fragmentaram a FCAR, mas alguns veteranos mantiveram ações pacifistas e de resistência à “união sagrada”.

Em dezembro de 1918, a organização seria refundada como Federação Anarquista, que em 1920 adotaria o nome União Anarquista. Seu órgão, Le Libertaire, renasceu em 1919, retomando o papel central na difusão das ideias libertárias.

A trajetória da FCA/FCAR mostra como o anarquismo organizado buscou, naquele período, articular coerência ideológica, ação sindical, internacionalismo e antimilitarismo radical, mesmo diante de crises que poderiam ter condenado o movimento à dispersão. Sua história é, ao mesmo tempo, um retrato da força e da fragilidade das iniciativas libertárias frente às convulsões políticas do início do século XX.

Referências:
Guillaume Davranche, Jovem Demais para Morrer. Trabalhadores e Revolucionários Diante da Guerra (1909-1914), Montreuil, L’Insomniaque/Libertalia, 2014.
Jean Maitron, O movimento anarquista na França, das suas origens até 1914, Paris, Gallimard, 1992.
Paul B. Miller, De revolucionários a cidadãos: antimilitarismo na França, 1870-1914, Duke University Press, 2002.

+ sobre Anarquia - Anarquismo - Anarquistas