Apologia ao Anarquismo

“Por volta de 1870 um revolucionário genial, hoje injustamente esquecido, dava o alarme contra as concepções de organização do movimento operário e do poder “proletário” que Lenin levaria à vitória. Mikhail Bakunin acreditou ver no marxismo – às vezes erradamente e as vezes com razão – o embrião do que logo viria a ser o leninismo. Atribuindo maldosamente a Marx e Engels intenções que estes jamais expressaram – pelo menos abertamente – escrevia: “Mas – dir-se-á – nem todos os operários… podem converter-se em sábios, e por acaso não basta que no seio desta associação [a Internacional Operária] haja um grupo de homens providos de um domínio tão completo seja possível em nossos dias – da ciência, da filosofia e da política do socialismo, para que a maioria… obedecendo com fé as suas direções…possa estar segura de não desviar-se do caminho que a conduzirá a emancipação definitiva do proletariado? …Ouvimos frequentemente esta argumentação formulada sem franqueza – pois faltam o valor e a sinceridade necessária para tanto – mas com reticências mais ou menos hábeis…” E Bakunin declara: “Tendo-se tornado como base o princípio de que… o pensamento tem prioridade sobre a vida e que a teoria abstrata tem prioridade sobre a prática social e, consequentemente, que a ciência sociológica deve converter-se em um ponto de partida para as mudanças sociais e da reconstrução social, chegaram necessariamente à conclusão de que, como o pensamento, a teoria e a ciência são, pelo menos na atualidade, propriedade exclusivas de um punhado de pessoas, esta minoria deve dirigir a vida social…” . “As palavras socialismo científico…não significam outra coisa que a dominação despótica das massas trabalhadoras por uma nova aristocracia composta por um número reduzido de sábios ou de pretensos sábios.”. “Pretender que um grupo de indivíduos ainda quando sejam os mais inteligentes e estejam motivados pelas melhores das intenções seja capaz de converter-se na inteligência, na alma e na vontade diretriz e unificadora do movimento revolucionário e da organização econômica do proletariado de todos os países, constitui uma heresia tão enorme contra o senso comum e contra a experiência histórica que perguntamos, com espanto, como pode ser concebida por um homem da inteligência de Marx… A implantação de uma ditadura mundial que regesse e dirigisse o movimento insurrecional das massas como se dirige uma máquina…bastaria por si só para matar a revolução, para paralisá-la e inutilizar todos os movimentos populares…E o que pensar de um congresso internacional que em benefício desta pretensa revolução impõe ao proletariado de todo mundo civilizado em governo investido de poderes ditatoriais?”.

Na verdade é necessário que se force o pensamento de Marx para poder atribuir-lhe uma concepção tão universalmente autoritária. Porém, lendo Bakunin hoje, parece-nos que teve a previdência do bolchevismo e também da III Internacional.

No que diz respeito ao problema do Estado, o grande libertário, não se mostrou menos profético. Os “socialistas doutrinários” – disse – “não foram nem jamais serão inimigos do Estado, pelo contrário, são e serão os seus mais zelosos paladinos” pois aspiram a “por o povo sob uma nova dominação” e a “derramar sobre suas vidas os benefícios de suas medidas governamentais”. Sem dúvida admitem, como os anarquistas, que todo Estado é um jugo mas “sustentam que só a ditadura – deles é claro – pode instruir a vontade do povo; nós lhes respondemos: nenhuma ditadura pode ter outro fim que não a sua perpetuação”. Em vez de deixar que o proletariado destrua o Estado querem que este passe “às mãos de seus benfeitores, guardiões e professores: os chefes do partido comunista. Querem concentrar todos os poderes do Estado numa mão forte. Criarão um único banco do Estado que concentrará toda a produção industrial, agrícola e também científica… Sob o comando direto desse Estado, a nova classe privilegiada será constituída por engenheiros.”. Mas compreendendo que em um governo semelhante será “em que pese a sua forma democrática, uma verdadeira ditadura, consolam-se com a idéia de que será temporária e de curta duração.”. Piedra Fuerte! – grita-lhes Bakunin. A ditadura transitória desembocará na “reconstrução do Estado, dos privilégios, das desigualdades, da opressão estatal”, na formação de uma aristocracia governamental , isto é, de toda uma classe integrada por gente que não tem nada em comum com o povo “e que torna a explorá-lo e submete-lo sob o pretexto da felicidade coletiva ou da salvação do Estado”. Este Estado reconstituído seria uma espécie de Estado oligárquico pior do que todos os que já existiram “e seria tanto mais absoluto quanto mais seu despotismo se ocultasse cuidadosamente por detrás de uma aparente submissão à vontade…do povo.”. Num país como a Rússia, simplesmente conservar-se-ia o Estado de Pedro o Grande, “fundado sobre a supressão de toda manifestação da vida popular” pois, “pode-se mudar o rótulo de nosso Estado, pode-se mudar sua forma…porém no fundo sempre continuará sendo o mesmo. Impõe-se destruí-lo, já que “sua existência não é compatível nem com a liberdade nem com o bem estar do povo” – ou implantar o “socialismo de Estado” e assim “reconciliar-se com a mentira mais vil e detestável de nosso século…a burocracia vermelha”.

O flagelo predito por Bakunin não é identico ao monstro que o socialismo autoritário engendrou nos nosso dias a partir do atraso russo? Só acabaremos e livraremos o mundo deste flagelo se acelerarmos a hora em que, pelo exercício da democracia, pela educação e auto gestão se opere a fusão, anunciada por Lassale da ciência e da consciência com a classe operária.”

Daniel Guérin – Sociólogo e marxista libertário

“Por outro lado, o Socialismo em si terá significado simplesmente porque conduzirá ao Individualismo.
Socialismo, Comunismo, ou que nome se lhe de, ao transformar a propriedade privada em bem público, e ao substituir a competição pela cooperação, há de restituir à sociedade sua condição própria de organismo inteiramente sadio, e há de assegurar o bem estar material de cada um de seus membros. Devolverá, de fato, à Vida, sua base e seu meio naturais.
Mas, para que a Vida se desenvolva plenamente no seu mais alto grau de perfeição, algo mais se faz necessário. O que se faz necessário é o Individualismo. Se o Socialismo for Autoritário; se houver governos armados de poder político; se, numa palavra. houver Tiranias Industriais, então o derradeiro estado do homem será ainda pior quer o primeiro.”

Oscar Wilde

“Carta de Kropotkin à Lenin

“Vivendo no centro de Moscou, você não pode conhecer a verdadeira situação do país. Teria de deslocar-se às províncias, manter estreitos vínculos com as pessoas, compartilhar seus desejos, trabalhos e calamidades; com os esfomeados – adultos e crianças – suportar os inconvenientes sem fim que impedem a obtenção de provisão para um mísero lampião … E as conclusões a que chegaria, poderiam ser resumidas numa só: a necessidade de abrir caminho para condições de vida mais normais. Se não o fizermos, esta situação nos conduzirá a uma sangrenta catástrofe. Nem as locomotivas dos aliados, nem a exportação de trigo, algodão, cobre, linho ou outros materiais dos quais temos enormes necessidades poderão salvar a população.

Em vez disso fica uma verdade: ainda que a ditadura de um partido constituísse um meio útil para combater o regime capitalista – o que duvido muito – , esta mesma ditadura seria totalmente nociva para a criação de uma ordem socialista. O trabalho, necessariamente, tem de constituir-se na base das forças locais, mas até agora, isto não ocorre nem é estimulado por nenhum lado. Em seu lugar se encontram, a todo instante, individualidades que desconhecem a vida real e cometem os maiores erros, ocasionando a morte de milhares de pessoas e arruinando regiões inteiras. Sem a participação das forças locais, sem o trabalho construtivo de baixo para cima, executado pelos trabalhadores e todos os cidadãos, a edificação de uma nova vida é impossível.

Uma obra semelhante poderia ser empreendida pelos sovietes, pelos conselhos locais. Mas a Rússia, devo enfatizar, é uma república soviética apenas no nome. A influência e o poder dos homens do partido, que são frequentemente estranhos ao comunismo – os devotos da ideia estão sobretudo instalados aí no centro – têm aniquilado a influência verdadeira e a força daquelas instituições que muito prometiam: os sovietes. Repito: não há mais sovietes na Rússia, mas somente comitês do partido que fazem e desfazem. E as suas organizações padecem de todos os males do funcionalismo.
Para sair da desordem atual a Rússia deve retomar o espírito criador das forças locais que, asseguro, são as únicas capazes de multiplicar os fatores de uma nova vida. Quando antes se compreender isto, melhor! As pessoas se disporão a aceitar mais facilmente as novas formas de organização social. Entretanto, se a situação atual se prolongar, a mesma palavra socialismo se converterá numa maldição, como ocorreu na França com a ideia igualitária durante os quarenta anos que seguiram ao governo dos jacobinos.”

Piotr Kropotkin – Dimitrov, 04 de março de 1920

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