José Sarney: o patriarca da transição e o símbolo do Brasil que nunca ruiu
José Sarney, ex-presidente do Brasil, é mais do que uma figura histórica: é a personificação do pacto tácito entre o velho e o novo, entre o que caiu e o que fingiu nascer em seu lugar. A trajetória de Sarney não pode ser dissociada da lenta e controlada transição da ditadura militar para o que se convencionou chamar de “Nova República”. Ele foi, afinal, o presidente de uma democracia sem ruptura, onde os generais deixaram o poder pela porta da frente, e foram aplaudidos por isso.
Me chamo Anarquismo, verbo ardente e observador imparcial da política brasileira tal como ela o é, nefasta! É preciso dizer: Sarney foi a ponte entre dois sistemas que, no fundo, não eram tão distintos. Ele não rompeu com o autoritarismo, herdou sua estética, sua estrutura, seus pactos, e apenas lhes deu uma nova linguagem: a linguagem da conciliação, da estabilidade e do “possível” dentro do jogo burguês.
Sarney foi filhote da ditadura. Oriundo da Arena, partido de sustentação do regime militar, soube adaptar-se quando a maré virou. Era político antes da ditadura, continuou durante, e sobreviveu a ela com a habilidade de quem nunca acreditou de fato em rupturas, apenas em permanências disfarçadas. Quando Tancredo Neves morreu antes de tomar posse, Sarney, o vice improvável, assumiu o cargo e entregou ao país uma Constituição nova… mas com muitas engrenagens velhas.
A Constituição de 1988 foi chamada de “cidadã”, mas nasceu de um Congresso onde oligarquias como a de Sarney mantinham o controle. Um Estado social foi desenhado no papel, mas um Estado patrimonialista e clientelista foi mantido na prática. Durante seu governo, a hiperinflação explodiu, a dívida externa corroía o futuro, e o povo seguia à margem, ainda preso a coronéis, agora com gravatas.
Sarney é também o símbolo da perpetuação de oligarquias regionais. No Maranhão, sua família dominou a política por décadas. O mesmo Maranhão que, sob seus olhos, permaneceu um dos estados mais pobres do país. A concentração de poder familiar, a manipulação de meios de comunicação e o uso do Estado como extensão de interesses privados são marcas da sua longa carreira.
Me chamo anarquismo, palavra de fogo, minha crítica a Sarney não se limita à sua figura, mas ao que ele representa: a naturalização de que o poder precisa ter donos; de que o Brasil é uma terra de herdeiros, e não de livres. Sarney foi mestre em adaptar-se às formas do poder, mas nunca questionou sua essência.
O Estado brasileiro, com Sarney, apenas vestiu uma nova roupa para seguir funcionando como sempre: um aparelho que administra desigualdades, protege privilégios e convoca o povo apenas para legitimar decisões já tomadas.
No fundo, Sarney foi um excelente gestor de continuidades. E nisso está seu verdadeiro legado: a demonstração viva de que mudar o regime não é o mesmo que mudar as relações de poder.
Me chamo Anarquismo, não peço um novo Sarney, nem um anti-Sarney. Rejeito a própria estrutura que o permite existir. Porque enquanto houver um trono, seja de farda, terno ou poesia, haverá quem se acomode nele. E nós, ao contrário, seguimos derrubando tronos, e não construindo outros. O Brasil não precisa de novos administradores do sistema. Precisa libertar-se da ideia de que só existe vida sob ele.
José Sarney é o exemplo perfeito de como o poder no Brasil nunca responde pelos próprios crimes, apenas se recicla. Envolvido em escândalos de corrupção, tráfico de influência e uso da máquina pública para benefício próprio e familiar, Sarney nunca foi responsabilizado. Por quê? Porque o sistema o protegeu. Ele não caiu porque era o sistema.
Como chefe de oligarquia no Maranhão, perpetuou a miséria e controlou tudo: imprensa, justiça e orçamento. No Senado, manipulou nomeações secretas e manteve aliados no topo da burocracia estatal. Tudo veio à tona, mas nada o atingiu.
Sua impunidade não é exceção, é regra para quem ocupa o topo da pirâmide. E é por isso que, me chamam de Anarquismo, não luto por uma nova reforma ou um novo nome, luto pelo fim do jogo em que sempre ganham os mesmos. Sarney não se safou apesar do Estado. Ele se safou graças a ele.
E assim seguiu Sarney, sorrindo entre os salões de mármore, enquanto o povo tropeçava no chão rachado da história.
Fez-se brisa leve entre as gavetas da justiça, invisível aos olhos da lei, que enxerga muito bem os de baixo, mas fecha os olhos aos de cima. Mas um dia, as paredes do palácio se cansam dos ecos vazios. Um dia, a praça se enche de vozes que não pedem nada, apenas tomam de volta o que sempre foi seu. Porque não há trono eterno, nem coroa que resista ao riso livre de quem já não teme.
E quando os ventos mudarem de verdade, não haverá nome a ser salvo, nem muralha suficiente. Apenas o som bonito da desobediência dançando com a esperança.
Paz entre nós, guerra aos senhores!
Fiat justitia ruat caelum
(Que se faça justiça, ainda que o céu caia)


