Liberdade online e Tecnologia segundo o anarquismo

A diferença é que hoje, com a internet, os fenômenos libertários não são mais utópicos ou marginais. Pelo contrário. De cara, a internet fez uma baita revolução contra a TV ao juntar o emissor com o receptor da mensagem. No lugar da passividade, a ação direta. A web também abriu a era do conhecimento livre e compartilhado. A largada foi dada nos anos 80, quando o programador americano Richard Stallman bolou um sistema operacional de código aberto e o chamou de GNU (sigla para “GNU não é Unix”, em alusão a um sistema operacional da época). Com ele, você mesmo corrige e melhora o trabalho de outros. Em 1991, surgiu o filhote mais famoso do GNU: o Linux, um sistema aberto alternativo ao monopólio do Windows que inaugurou a onda dos produtos feitos por voluntários e distribuídos de graça. Era o início do chamado movimento software livre. Hoje, esse método é usado até em videogames. Nos games mods (de “modification”), o jogador tem acesso ao código- fonte do game, podendo modificar as regras, os cenários e até os personagens.

Em 1994, outra revolução veio com o conceito wiki, baseado na colaboração de todos os habitantes do planeta que tenham conexão a internet. “Não me considero anarquista, mas há algo de anarquismo no wiki já que nele tudo é feito de baixo para cima”, disse à Super o programador americano Ward Cunningham, criador do sistema wiki. Não demorou para que esse conceito inspirasse a Wikipedia, a enciclopédia grátis da internet cujos artigos são escritos a várias mãos. Ao contrário dos catataus de quando você era criança, na Wikipedia os textos são alterados pelos leitores à medida que o conhecimento avança. É como o que dizia Bakunin sobre o esforço coletivo para libertar a sociedade.
No mundo dos negócios, a onda wiki inspirou o livro Wikinomics, que está sendo escrito pelo consultor canadense Don Tapscott. “Ao aproveitar a tecnologia da colaboração planetária, os funcionários, clientes, fornecedores e até competidores estão mudando a forma de elaboração de produtos e serviços”, afirma ele. Um exemplo disso é o portal YouTube, que reúne 100 milhões de vídeos grátis – 65 mil vídeos novos por dia. O portal abriga de tudo, de vídeos feitos por quem assiste até programas das emissoras convencionais. Com 20 milhões de visitas por mês, essa nova (des)organização vem mudando as regras da indústria do entretenimento. A gravadora Warner se associou ao YouTube para distribuir discos; as TVs CBS e NBS também fizeram acordos para difundir seus seriados; e o cantor Beck já anunciou que as faixas e os clipes do novo cd vão estar de graça no site.
Empresas como o buscador Google, que se baseiam no comportamento de gente do mundo inteiro, também viraram motivo de análise. Em The Wisdom of Crowds (“A Sabedoria da Multidão”), o jornalista americano James Surowiecki afirma que grandes grupos são mais inteligentes que uma elite. São melhores para inovar e resolver problemas. “O melhor grupo de decisão vem de múltiplas decisões de indivíduos independentes”, afirma Surowiecki, repetindo o que Proudhon dizia, 160 anos atrás.
Mas essa colmeia digital também sofre críticas. Para o cientista de computação Jaron Lanier, que popularizou o termo “realidade virtual”, a colaboração planetária acaba com a criatividade individual para formar uma massa sem rosto, que ele chama de “maoismo digital” (em alusão ao regime do ditador chinês Mao Tsé-tung). Para ele, esse esforço coletivo acaba reproduzindo a vida rotineira de uma colmeia e nivelando por baixo o produto final. “A beleza da internet é conectar as pessoas. O valor está nos outros. Entretanto, se começarmos a acreditar que a internet em si é uma entidade que tem algo a dizer, vamos desvalorizar essas pessoas e nos fazer de idiotas”, afirma.

Propriedade Intelectual de cu é rola!

No campo da ciência, os ideais libertários confrontam-se com a crescente restrição do livre fluxo de informação científica. Um estudo publicado pela Associação Médica Americana em 2002 mostrou que 47% dos geneticistas não puderam ver trabalhos de colegas devido a leis restritivas, um aumento de 34% em relação ao estudo anterior, de meados dos anos 90. Muitos acabam fazendo pesquisas já realizadas por outros cientistas. É aí que entra em cena o Creative Commons, uma ferramenta que conjuga propriedade intelectual com maior acesso. Na prática, o autor continua tendo alguns direitos sobre a obra, mas não todos; e o público se beneficia com mais obras disponíveis. Em pouco mais de 3 anos, essa iniciativa já licenciou 140 milhões de trabalhos na web por meio do Google. “Não somos contra o copyright, que no fim das contas é um monopólio garantido pelo Estado. Porém, contamos com voluntarismo, cooperação, descentralização, bases do pensamento anarquista“, diz Mike Linksvayer, do Creative Commons. Para o escritor e teórico de cibercultura Bruce Sterling, esse é o modelo ideal. “Tem forte influência de idéias coletivistas, ao contrário do download de mp3”, afirma ele. “Prejudicar os interesses econômicos das pessoas não é coletivismo, mas pirataria.”

Licença Creative Commons

Ainda mais próximo do ideal anarquista é o chamado copyleft, que faz trocadilho com o copyright (right é direita, left é esquerda): ele permite a reprodução do material para fins não comerciais, desde que citada a fonte.

copy_left

Muita gente duvida que esse sistema vigore um dia. Mas, para Eben Moglen, professor de direito da Universidade de Columbia, esse dia está mais perto do que pensamos. No artigo Anarquismo Triunfante: Software Livre e a Morte do Copyright, ele afirma que o software livre foi o primeiro passo rumo ao fim da propriedade intelectual. “Temos uma visão de como será o futuro da criatividade humana em um mundo de interconexão global.”

Tecnologia e Anarquismo

A tecnologia, em sua pureza, não é tratada como um mal em potencial pelos libertários – com exceção da corrente anarco-primitivista. Ela é ferrenhamente combatida em seus moldes capitalistas, já que, sob eles, não possui nenhuma, ou quase nenhuma, função humana ou social e, ademais, na maioria das vezes, chega a corromper drasticamente esses campos – como é o caso das guerras, da excessiva automação industrial, das políticas tecnocráticas, etc. Em suma, a tecnologia é tida enquanto mais um instrumento de potencialidades humanas, podendo ter uma expressiva funcionalidade libertária – como nos campos da medicina, das comunicações, dos transportes, da segurança e desenvolvimento produtivo do trabalho, etc. Porém, a corrente de pensamento anarco-primitivista defende a aversão a qualquer forma de desenvolvimento tecnológico, advogando o retorno das condições pré-civilizatórias para um efetivo desenvolvimento humano.
Outra corrente anarquista que também se opõe à tecnologia é o anarquismo verde ou eco-anarquismo ou, ainda, ecologia libertária, que se apoia nos trabalhos teóricos do geógrafo Élisée Reclus e de Piotr Kropotkin. Além de se opor à autoridade e à hierarquia, essa vertente critica a dominação do homem sobre a natureza. Propõe a auto-organização, a autogestão das coletividades e o mutualismo. Essa corrente é próxima da ecologia social elaborada pelo americano Murray Bookchin. Muito crítica em relação à tecnologia, defende a ideia de que o movimento libertário, para evoluir, deve rejeitar o antropocentrismo. Para os ecologistas libertários, o ser humano deve renunciar a dominar a natureza.

Texto Eduardo Szklarz