Diálogo imaginário entre Mikhail Bakunin e Karl Marx

Diálogo imaginário entre Mikhail Bakunin e Karl Marx
(para um melhor entendimento das diferenças entre marxismo e anarquismo)Nota prévia: Bakunine representa uma das correntes anarquistas mais importantes. Mas outras existem que não seguem a perspectiva bakuninista. Mesmo assim, este texto é útil para se entender as diferenças entre o marxismo e o anarquismo devendo ser visto como um simples ponto de partida para um estudo mais aprofundado e uma análise comparativa entre as duas correntes de pensamento, que representam importantes correntes históricas do movimento operário)Marx – Como tu sabes, Bakunine, eu considero-te como um amigo, e não hesito em chamar-te socialista, apesar de…

Bakunine – Apesar de quê?
Marx – Bom, tu sabes: é que tu deprecias constantemente o que eu chamo de política
Bakunine – Com certeza. O parlamento, os partidos, as assembleias constituintes, as instituições representativas não me interessam nada. A Humanidade tem necessidade de algo muito mais superior: um novo mundo sem leis nem Estado.
Marx – A anarquia…
Bakunine – Sim a anarquia. É necessário derrubar o sistema político e a ordem moral do presente mundo. Devemos mudar de alto a baixo, e é uma quimera acreditar que se pode modificar as instituições vigentes.
Marx – Eu não quero modificá-las; o que eu simplesmente digo aos trabalhadores é que eles devem conquistá-las.
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Bakunine – Devem é ser completamente abolidas. O Estado corrompe tanto os nossos instintos como a nossa vontade e inteligência. O princípio fundamental de todo o socialismo aceitável é o de derrubar e modificar a sociedade.
Marx – Chamo a isso uma singular definição de socialismo.
Bakunine – As definições não tem importância para mim. É aí que nós divergimos completamente. Eu não penso que qualquer sistema pré-fabricado possa salvar o mundo. Eu não tenho sistema nenhum. Eu sou um investigador. Acredito tanto no instinto como no pensamento.
Marx – Mas – repara – tu nunca serás socialista se não tiveres uma política.
Bakunine – Bom, então tenho uma. E se ter uma política significa organizar as coisas ponto por ponto, eu dir-te-ei qual é o meu programa: em primeiro lugar, abolir as leis fabricadas pelos homens.
Marx – Mas tu não podes abolir as leis. O universo é governado por leis.
Bakunine – Naturalmente que não vamos suprimir as leis naturais. Aí estou de acordo contigo. Aliás, os homens poderão aumentar a sua liberdade se alargarem o seu conhecimento relativamente às leis que regem o universo. O homem não pode ignorar a natureza. O que eu proponho é uma coisa distinta: o que eu digo é que devemos suprimir as leis feitas pelas mãos dos homens, que são as leis artificiais. Ou seja, as leis políticas e jurídicas.
Marx – Tu não podes pretender que a sociedade não deixe de impor leis aos seus próprios membros.
Bakunine – A sociedade não precisa de impor as suas leis. O homem é, por sua natureza, um homem sociável. Fora da sociedade, o homem pode ser uma besta ou um santo. Existem leis numa sociedade capitalista porque esta é competitiva e promove a luta do homem contra o homem. A liberdade só será possível quando todos os homens sejam iguais, e por isso é que não pode haver liberdade sem socialismo.
Marx – Ora aí está um ponto em que estou completamente de acordo contigo.
Bakunine – Tu dizes que estás de acordo comigo, Marx. Mas acontece que quando eu afirmo que não pode haver liberdade sem socialismo, eu entendo também – e acho melhor sublinhar isto – que o socialismo sem liberdade não passa de escravatura e brutalidade
Marx – Mas eu nunca defendi o socialismo sem liberdade
Bakunine – Então não foste tu que defendeste a ditadura do proletariado.
Marx – A ditadura do proletariado é simultaneamente uma parte da liberdade e uma parte do processo de libertação
Bakunine – Quando falo de liberdade, eu falo da única liberdade digna desse nome: a liberdade que consiste no pleno desenvolvimento de todas as forças materiais, económicas e morais existentes no homem; uma liberdade que não admite qualquer restrição para além da resultantes da própria natureza. Eu defendo uma liberdade que, longe de estar condicionada pela liberdade do outro, é ,pelo contrário, confirmada e amplificada pela liberdade de todos. Eu quero uma liberdade que triunfe por cima da força e do princípio de autoridade.
Marx – Eu percebo as tuas palavras, mas desconheço o sentido que lhes dás. Uma coisa te garanto: é que tu nunca conseguirás construir o socialismo ou realizar politicamente qualquer coisa de mais substancial sem partires do princípio de autoridade.
Bakunine – O socialismo tem necessidade do princípio da disciplina e não do princípio de autoridade. Uma disciplina que não é imposta de fora, mas que é voluntária, reflexiva, e que o homem se impõe a si mesmo, e que se harmoniza perfeitamente com o princípio de liberdade.
Marx – Pelos vistos, Bakunine, não retirastes nenhuma lição das experiências das tuas rebeliões. É que esses movimentos não podem afirmar-se sem o princípio de autoridade. É preciso capitães, mesmo para os exércitos anarquistas.
Bakunine – Naturalmente que no momento da acção militar, em plena batalha, há papéis que são distribuídos segundo as capacidades de cada qual: uns a dirigir e a comandar, e outros a executar. Mas nenhuma dessas funções deve fixar-se e cristalizar-se. Não existe ordem hierárquica: o chefe de hoje deve tornar-se o subordinado de amanhã. Ninguém se deve elevar-se acima dos outros, e se for preciso alguma vez fazê-lo durante algum tempo, é para no momento seguinte voltar a descer, tal como acontece com as vagas do mar, e atingir a igualdade.
Marx – Ora bem, Bakunine, se tu admites que uma direcção e um comando são precisos durante a batalha, então poderemos talvez chegar a um consenso sobre o resto. Eu disse que a ditadura do proletariado só seria necessária durante os primeiros tempos do socialismo. Desde que a sociedade sem classes começar a ganhar maturidade, o Estado poderá desaparecer. Para empregar a expressão do meu colaborador Engels: “O Estado acabará por se esvaziar”
Bakunine – Não vejo nenhum sinal de esvaziamento do Estado no livro que tu e Engels escreveram, o Manifesto do Partido Comunista. É um engenhoso panfleto que eu não teria traduzido se não o visse como tal. Acontece que nos dez pontos do programa socialista por vocês descrito no livro, há pelo menos nove que preconizam o reforço do Estado: o Estado deve possuir todos os meios de produção, controlar o comércio e o crédito, impor o trabalho forçado e recolher os impostos, monopolizar a propriedade da terra, dirigir os transportes e as comunicações e dirigir as escolas e universidades.
Marx – Se não aceitas esse programa é porque não és socialista.
Bakunine – Mas o que está lá, é que não é o socialismo. É sim a mais pura forma de estatismo, de um Estado-Elefante sonhado pelos Alemães, e que se revelou inseparável da guilhotina. Ora o socialismo significa o controle da industria e da agricultura pelos próprios trabalhadores.
Marx – Um Estado Socialista é um Estado Proletário. Ambos devem controlar directamente o todo.
Bakunine – Ora aí está bem retratada a típica ilusão burguesa, essa ilusão democrática que pretende que o povo possa controlar o Estado. Na prática, é empre o Estado que controla o povo, e quanto mais Estado, mais amplo será o seu poder. Repara no que se passa na Alemanha: à medida que o Estado se reforça, toda a corrupção que está associada à política, alarga-se ao público que é considerado, apesar de tudo, o mais honesto possível. Não se deve esquecer ainda que o monopólio capitalista progride a par da prosperidade do Estado.
Marx- O crescente monopólio capitalista prepara justamente o caminho para chegarmos ao socialismo. A razão pela qual a Rússia está tão afastada do socialismo está no facto de que ela mal acabou ainda de sair do feudalismo.
Bakunine- O povo russo está mais perto do socialismo do que tu podes crer algum dia, um caro. Na Rússia os trabalhadores têm uma tradição revolucionário muito especial, e para a libertação do género humano, está-lhes reservada um papel determinante. A revolução russa tem profundas raízes nas alma do povo: no século XVII os camponeses revoltaram-se no Sudeste russo, e no século XVIII Pougatchev liderou uma revolta camponesa na vale do Volga, revolta essa que durou dois anos. Os russos não renegam a violência: eles sabem que o resultado do progresso humano está manchado de sangue. Nem sequer recuam face ao fogo: o incêndio de Moscovo, que foi o ponto de partida da derrota do Grande Exército, foi um sucesso inteiramente russo. São nessas fogueiras que a raça humana pode purgar as escórias da escravatura.
Marx- Meu caro, o que tu acabas reveste-se de facto de alguma carga dramática, mas a questão concreta que temos à nossa frente é o socialismo depende da formação de uma consciência de classe no proletariado e isso nós só podemos esperar nos países altamente industrializados como a Inglaterra, a Alemanha, a França. Os camponeses estão mal organizados e, de todas as classes sociais, são os menos aptos a fazer a revolução. Eles são mesmo mais retrógados que o lupem-proletariado (os indigentes e as escórias das cidades), autênticos bárbaros e verdadeiros trogloditas.
Bakunine- Aí está onde reside a nossa mais profunda divergência. Para mim, a fina flor do proletariado não é, como tu pretendes, os operários das fábricas, quaisquer que sejam as suas capacidades: eles são normalmente pequeno-burgueses ou então aspirando a sê-lo. Conheci-os bem no movimento operário da Suíça e posso-te garantir que estão todos estão impregnados de todos os preconceitos sociais, e de todas as aspirações mesquinhas da classe média. De resto, os técnicos são os menos socialistas de todas as camadas de trabalhadores. Aos meus olhos – meu caro Marx – a elite do proletariado é a grande massa, a plebe, os milhões de infelizes e de iletrados ridicularizados por ti e que tu chamas desdenhosamente lupem-proletariado.
Marx- obviamente que não aprofundastes o conceito de proletariado. O proletariado não são os pobres, até porque houve sempre pobres. O proletariado é qualquer coisa de novo na história. Não é a pobreza nem o infortúnio que torna os homens em proletários, mas sim a sua cólera contra a burguesia, é a sua dignidade, a sua resolução de pôr fim à sua condição. O proletariado forma-se só quando a indignação e a consciência de classe se acrescentam à pobreza. O proletariado é a classe tem um finalidade revolucionária, uma classe que aspira à destruição de todas as classes, uma classe que não pode emancipar-se sem também emancipar o conjunto do género humano.
Bakunine- O teu socialismo não elimina as classes, mas pelo contrário cria mais duas: a dos dirigentes e a dos dirigidos. Para além disso, o teu socialismo exige um governo com muitas mais funções e atribuições a realizar do que algum governo teve até agora, e será então o povo a ser governado. O que vai acontecer é que, de um lado, vai estar a extrema esquerda da «intelligentsia», a mais despótica e arrogante classe que podemos imaginar, e que irá querer dirigir em nome da experiência; do outro lado, teremos a simples e a massa ignorante que terá de obedecer.
Marx- Os legisladores e os administradores do Estado socialista serão os representantes do povo
Bakunine – Aí está mais uma ilusão liberal: a ideia que um governo saído de umas eleições possa representar a vontade do povo. Até o próprio Rousseau negava acreditar nisso. As intenções instintivas das elites governamentais estão sempre em oposição com os objectivos instintivos do homem da rua. Observando a sociedade a partir da sua posição superior, os governos não raro não podem evitar os actos de autoridade e de dominação.
Marx – A democracia falha por causa do monopólio das instituições políticas que se encontra nas mãos do poder financeiro da burguesia.
Bakunine – A pseudo-democracia socialista ficaria viciada por outros entorses. Um parlamento composto exclusivamente por trabalhadores – os mesmos trabalhadores e os mesmos dirigentes socialistas que temos hoje -transformar-se-ia rapidamente num parlamento aristocrático, como sempre aconteceu. Manda qualquer extremista para os sofás do Estado, e eles logo se transformarão em conservadores.
Marx – Há muitas razões que explicam isso.
Bakunine – A principal razão é que o Estado democrático é um contrasenso. Por sua natureza, o Estado é a autoridade, força, dominação, ou seja, desigualdade. Enquanto que a democracia, por definição, é igualdade. Daqui resulta que Estado e democracia não podem coexistir. Proudhon foi clarividente neste ponto ao dizer que o sufrágio universal é contra-revolucionário.
Marx – Esse ponto é bem o exemplo da evolução da mentalidade jornalística de Proudhon. É verdade que os trabalhadores, por causa da miséria em que vivem, são frequentemente alvo da influência propagandística da burguesia que os convence a fazer bom uso do voto, mas também é verdade que o sufrágio universal pode ser utilizado para fins socialistas. Podemos entrar na política e lutar por aquilo que achamos ser democrático. Não podemos realizar todos os objectivos pela simples entrada no parlamento, mas pelo menos, alguns deles serão possíveis.
Bakunine – Nenhum Estado e nenhuma república, por mais vermelha que seja pintada, poderá dar ao povo o que ele mais precisa: a liberdade. Todos os Estados, inclusive o Estado socialista que tu falas, são baseados, todos eles, na força.
Marx – Mas qual outra escolha poderíamos nós ter?
Bakunine – Pela educação, pelo conhecimento
Marx – O povo não tem instrução
Bakunine – Mas pode ser educado.
Marx – E quem o pode educar senão o Estado
Bakunine – A sociedade deve educar-se a si própria. Desgraçadamente todos os governos do mundo deixaram o povo num tal estado de ignorância que será necessário abrir escolas não só para as crianças mas também para os adultos. E estas escolas deviam desembaraçar-se de todo e qualquer vestígio do princípio de autoridade. Além disso, não haveriam apenas as escolas no sentido convencional da palavra, mas ainda academias populares em que os alunos, com as suas próprias experiências, poderiam em certa medida ensinar aos seus próprios professores, de forma que uma certa fraternidade intelectual se poderia desenvolver entre eles.
Marx – Afinal de contas, Bakunine, também admites duas categorias de pessoas, os alunos e os professores. Mas voltando ao assunto, eu penso que o ensino não será problema de maior uma vez instaurada a sociedade socialista.
Bakunine – Sim, claro. O primeiro problema é o da emancipação económica; o resto virá a seguir.
Marx – Nada cairá do céu, e será o Estado socialista que deverá determinar o que se deve fazer. Toda a experiência histórica aí está para nos mostrar: as populações mais evoluídas da Europa – os franceses e os alemães – devem a sua educação graças a um sólido sistema estatal que gere a instrução pública. Nos países em que o Estado não se encarrega da educação escolar o povo permanece irremediavelmente analfabeto.
Bakunine – Na Inglaterra os Colégios e as Universidade escapam ao controle do Estado
Marx – Mas acontece-lhes pior ainda: estão nas mãos da Igreja Anglicana que é, de resto, uma parte do próprio do Estado
Bakunine – Os colégios de Oxford e de Cambridge são geridos por sociedades independentes e tradicionais
Marx – Tu não conheces a vida inglesa, Bakunine. Os dois Colégios de que falas foram radicalmente reformados por leis emanadas do Parlamento. O Estado teve que intervir para os salvar da mais completa decadência intelectual, muito embora eles estejam atrasadíssimos em relação às Universidades alemãs.
Bakunine – Como quer que seja, a sua existência demonstra que é possível, aos próprios alunos, controlar os seus colégios. E não há razões para duvidar que os trabalhadores não possam fazer o mesmo relativamente às suas empresas e às suas terras.
Marx – Um dia virá em que certamente as coisas serão assim, mas até lá deve haver um estado operário no lugar dos burgueses.
Bakunine – Estou completamente em desacordo contigo nesse ponto. Tu acreditas que é preciso organizar os trabalhadores para conquistar o Estado, enquanto eu, pelo contrário, quero-os organizar para o destruir, ou por outras palavras, se assim o desejas, para o abolir. Tu preconizas novas instituições políticas, eu, em contrapartida, quero que o povo se possa espontânea e livremente federar.
Marx – O que é que tu entendes por federar livremente?
Bakunine – O trabalho organizar-se-á por si mesmo. Associações de produtores baseados no apoio mútuo constituir-se-ão por distrito e associar-se-ão livremente em entidades cada vez mais alargadas. E todo o poder virá da base.
Marx – Projectos desse género são simplesmente quiméricos. Tudo isso é uma cópia dos falanstérios e a vigésima edição da “Nova Jerusalém” proposta pelos socialistas utópicos. São projectos disparatados, ainda que perigosos, porque introduzem no projecto socialista noções e ideias estranhas que podem distorcer e prejudicar as verdadeiras soluções. Ao provocar uma diversão da atenção para outras coisas que não para o imediato, todos esses projectos têm um efeito conservador e reaccionário.
Bakunine – Ouve, Marx, se há alguma censura que me podes fazer não é com toda a certeza a de eu desviar a atenção dos homens para o imediato. Tanto mais que eu penso, tal como tu, que só existem dois partidos no mundo: o partido da revolução e o partido da reacção. Infelizmente, o partido da revolução já está dividido em duas facções: os campeões do Estado socialista, de que tu és o representante, e os socialistas libertários, de que eu faço parte. A tua facção tem muitos partidários, quer na Alemanha, quer na Inglaterra. Mas na Itália, e em Espanha os socialistas são todos libertários. E a questão que se vai colocar é a de saber qual é a tendência que irá prevalecer no movimento operário internacional.
Marx – É a tendência verdadeiramente socialista, claro como é a água; e nunca a sua ala anarquista.
Bakunine – Estás convencido da pureza do teu socialismo, mas isso deve-se simplesmente ao erro que cometes em relação à natureza da ditadura do proletariado. Não te dás conta – por acaso – do perigo que isso pode representar ao instaurar uma nova escravatura, seguindo, de resto, o que foi feito por outros Estados.
Marx – Tu pensas que lá porque o Estado foi sempre o instrumento da classe dominante, isso verificar-se-á eternamente. Deixa-me perguntar-te: não consegues imaginar a existência de um outro tipo de Estado?
Bakunine – Certamente que se pode imaginar algo de muito diferente, algo tão diferente que não se lhe pode chamar com o mesmo nome. Olha, por exemplo, pode-se pensar no sistema proposto por Proudhon: uma simples secretaria de negócios e uma banco de liquidação central ao serviço da sociedade.
Marx – Isso é o que provavelmente acontecerá na sociedade socialista definitiva. Um dia virá em que o governo do povo será substituído por uma administração das coisas, mas antes que o Estado desapareça ,é preciso que ele seja reforçado.
Bakunine – Isso parece-me completamente paradoxal e contraditório.
Marx – Mas que é que tu queres: vai ser assim mesmo, tal como eu prevejo . Tu conheces tão bem como eu a filosofia de Hegel, e sabes que a lógica da história é a lógica das contradições. O que é hoje afirmado pode ser negado amanhã.
Bakunine – O teu argumento é válido enquanto adoptarmos a filosofia hegeliana, mas historicamente as coisas não são assim. Tu nunca conseguirás destruir o Estado se decidires reforçá-lo. Ouve, eu sou o teu discípulo: quanto mais o tempo passa, mais eu dou-te razão quando falas da revolução económica. Porém, não percebo nem nunca aceitarei os teus projectos autoritários.
Marx – Se tu és anarquista, tu não podes ser meu discípulo. Vejamos mais ao pormenor os teus erros. Em primeiro referes-te ao princípio de autoridade como se este fosse errado em todo o lado e em qualquer circunstância. Ora uma afirmação deste tipo é superficial. Nós vivemos em sociedades industrializadas: nas fábricas modernas trabalham centenas de trabalhadores que dirigem máquinas complexas, e que lançaram para a história as pequenas oficinas artesanais. A própria agricultura será brevemente dominada pela máquina. Ora a acção mútua combinada baseia-se na acção individual, independente; enquanto a acção combinada supõe organização, e organização implica autoridade. No mundo medieval, o pequeno artesão poderia ambicionar a resistir a todo o género de autoridade, mas se assim pensas estás condenado a viver no passado
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Bakunine – Repara, Marx, que eu não resisto e não contesto toda e qualquer autoridade. Por exemplo, nos sapatos eu conformo-me à autoridade do sapateiro, na construção civil conformo-me à autoridade do arquitecto, e o mesmo se diga quanto ao médico em matéria de saúde. Todavia eu não permito que o sapateiro, o arquitecto ou o médico exerçam a sua autoridade sobre a minha pessoa. Aceito os seus conselhos amigáveis, respeito a sua experiência e os seus conhecimentos, mas reservo-me o direito de critica e censura. Não me contento a consultar apenas uma única autoridade no assunto, mas várias para comparar os seus pareceres. Não considero, aliás, ninguém infalível. Reconheço que não posso saber tudo, mas ninguém pode saber tudo, e o homem universal omnisciente não existe. Razões, pois, de sobra para não aceitar uma autoridade fixa, constante e universal.
Marx – Mas se tu suprimes a autoridade na vida económica e política, nada se pode realizar, de nenhuma maneira. Por exemplo, como poderiam funcionar os comboios se ninguém estivesse investido de autoridade para fixar e decidir a organização e o horário das linhas, as horas a que os comboios devem partir.
Bakunine – Os ferroviários podem perfeitamente encarregar-se dessas tarefas, e designar os agentes para desempenhar cada uma dessas funções, e até de obedecer livremente às instruções que lhes são dadas. O que me parece é que, segundo o teu socialismo, Marx, até os condutores das locomotivas faziam marcha-atrás para satisfazer a nova classe de privilegiados que seriam os administradores do Estado socialista, de charuto na boca, e instalados nas carruagens de 1ª classe.
Marx – Escuta-me, Bakunine. Não sou mais adepto do Estado do que tu. Todo o verdadeiro socialista admite a desaparição do Estado logo que o triunfo do socialismo o torne inútil. Mas queres tu que o Estado desapareça subitamente, deixando os trabalhadores sem qualquer espécie de direcção, de disciplina e controle. O nó da questão é que vós, os anarquistas, não tem quaisquer planos para o futuro.
Bakunine – É justamente porque não podemos prever exactamente o que será o futuro que eu desconfio muito dos teus planos detalhados. Quando os instintos egoístas forem substituídos pela fraternidade, acredito que os problemas técnicos de produção e distribuição serão resolvidos por comum acordo e com a boa vontade de todos.
Marx – As tuas dúvidas, Bakunine, são em parte de carácter psicológico, e em parte de ordem moral. Tu estás rotundamente enganado quando dizes que o Estado criou o Capital. Uma tal ideia acentua o simplismo do teu ponto de vista. Julgas que basta superar e resolver o problema do Estado para o capitalismo desaparecer. A verdade é outra: suprimamos o capital, suprimamos a concentração dos meios de produção que estão nas mãos de alguns privilegiados, e então o Estado não tardará a ser residual.
Bakunine – O problema está na verdadeira natureza do Estado; todos os Estados são a negação da liberdade.
Marx – Ao adoptares uma atitude tão extrema em relação ao Estado, Bakunine, tu estás a comprometer a causa dos trabalhadores. Serves-te da tua influência para induzir os trabalhadores para a abstenção nas eleições.
Bakunine – Eu até faço mais: não só os aconselho a absterem-se, como os encorajo à luta.
Marx – Tu leva-os a lutar com muitas dúvidas sobre a vitória, o que é outro exemplo de irresponsabilidade. Outro erro de ordem moral prende-se com a tua manifesta falta de calma. Agrada-te a guerrilha das barricadas mesmo nas causas em que não acreditas por aí além, e isso só para satisfazer essa tua tendência pela acção. Tu desprezas a verdadeira actividade política porque simplesmente ela exige paciência, ordem e reflexão.
Bakunine – Mas eu dediquei toda a minha vida à política!
Marx – Tu dedicastes a tua vida não à política, mas à conspiração política, o que não é a mesma coisa.
Bakunine – Passei toda a minha vida nos meios operários realizando acções de organização, propaganda, educação.
Marx – Educação? De quê?
Bakunine – Da revolução. Não posso admitir que os trabalhadoresgastem as suas energias nas falaciosas instituições representativas e governamentais.
Marx – Eu compreendo que tais ideias possam ter adeptos na Itália e em Espanha, nos advogados, estudantes e noutros intelectuais, mas os trabalhadores não deixarão de se interessar pelos problemas políticos do seu país. Dizer aos trabalhadores para se absterem de fazer política é lançá-los para os braços dos padres e dos republicanos burgueses.
Bakunine – Meu caro, se leres os meus escritos, sabes bem que sempre combati com vigor a Igreja e os republicanos. As tuas opiniões, comparadas às minhas, são bem mais moderadas e aceites por eles.
Marx – Nunca pus em dúvida a tua aversão aos padres e aos republicanos, mas não estás a ver que, ao agir como fazes, estás a fazer causa comum com eles.
Bakunine – Estás a desconversar
Marx – Não, falo a sério. Examinemos a tua propaganda pela liberdade. É claro que a única liberdade que tu acreditas é na liberdade individual. Ora trata-se da mesma liberdade invocada pelos teóricos burgueses do tipo de Hobbes, Locke e Mill. Quando falas de liberdade, consideras que ninguém deve ser condenado por nenhuma razão. Tu concebes cada homem separadamente na posse dos seus próprios direitos, constantemente ameaçados pelas instituições sociais e colectivas como o Estado. Nunca consegues raciocinar como um verdadeiro socialista, que pensa no conjunto da humanidade em que o homem é inseparável da sociedade .
Bakunine – Mais uma vez, Marx, se prova que não me escutaste bem, nem compreendeste as minhas palavras.
Marx – Eu pretendo até compreender-te muito melhor que tu próprio. Ao recusar conceber o Estado de outra maneira que não um simples instrumento de opressão, tu demonstras a tua incapacidade de conceber o homem de outra maneira diferente daquela que o vê como uma unidade isolada, cada qual dotado de uma vontade, interesses e desejos. Tal e qual o que pensam os teóricos do pensamento burguês liberal e – lamento dize-lo – vós, anarquistas, têm a mesma concepção que eles. O vosso anarquismo mais não é que o puro liberalismo levado ao extremo, histericamente. A vossa filosofia é essencialmente egoísta, ao terem um concepção do eu e da liberdade do eu aparentada à metafísica do capitalismo.
Bakunine – A metafísica não me interessa
Marx – E, no entanto, o anarquismo, qualquer que seja a faceta por onde se lhe pegue, acaba por nos levar à conclusões metafísicas. Tendes, no fundo, uma ética muito semelhante á moral cristã: “Apoio mútuo”, dizem vós., o que em termos cristãos poderia ser traduzido por “Ama o teu próximo, sacrifica-te pelos outros”. O verdadeiro socialismo não tem necessidade de preceitos deste tipo porque não reconhece o isolamento do indivíduo. Numa sociedade socialista, o homem não pode ser separado do seu vizinho ou de si próprio.
Bakunine – Acontece que o Estado é a causa para essa separação, e é evidente que não há outra solução que não passe pela abolição do Estado.
Marx – Mas nós não o podemos eliminar enquanto não mudarem as condições que fazem do Estado uma excrescência da sociedade.
Bakunine – Logo que os trabalhadores tiverem, força suficiente para o afastar, o Estado deixará de ser necessário.
Marx – Admites, então, que tal é uma necessidade actual?
Bakunine – Claro que é necessário para uma sociedade baseada na propriedade privada. Mas quando a propriedade for repartida, com a vitória do socialismo…
Marx – Um socialismo preocupado com a repartição da propriedade é uma vulgaridade completa. Sê sincero, Bakunine, não és daqueles que pensam que o socialismo consiste na livre repartição individual…
Bakunine – Mas é que eu não tenho dúvidas sobre isso
Marx – Meu amigo, os objectivos do socialismo são muito mais radicais. Ele propõe operar uma completa transformação do eu, a criação de um homem novo, uma vontade humana fundada na sociedade, de modo que cada um se liberte do seu isolamento. Dizes tu que o teu objectivo é a liberdade: ora o socialismo dar-nos-á uma liberdade por assim dizer desconhecida em todas as experiências humanas do passado.
Bakunine – Realmente tu, Marx, fazes da vida uma coisa muito misteriosa
Marx – E tu? Tu transforma-a numa coisa muito simples e pequena. Observa o mundo e repara como uma parte é livre e outra está oprimida.
Bakunine – Imaginar? Eu? Mas essa é a realidade! A minoria é livre: são os ricos.
Marx – Devo dizer que ninguém no mundo é realmente livre, até os mais ricos dos burgueses. Moralmente falando, o capitalista, enquanto homem, é tão escravo como do sistema como o são os trabalhadores. E é isso que nos permite falar, por respeito à verdade, que a emancipação do proletariado representa a emancipação do género humano.
Bakunine – Mas o problema permanece: o rico faz o que lhe apetece, enquanto ao pobre falta-lhe o que é básico.
Marx – Contudo, as escolhas do rico são guiadas e distorcidas pela sua própria cultura, pelos seus próprios preconceitos e pelo sistema que nega a vontade de cada um. Isto é assim quanto mais seguirmos a mesquinha teoria da liberdade que diz “faz o que queres”
Bakunine – Sempre é melhor que a teoria da liberdade que é definida pelo “faz o que deves fazer”, que é, aliás, o que os padres dizem: a liberdade absoluta é servir a Igreja. Ou o que Hegel diz: a liberdade perfeita é obedecer ao Estado. Pessoalmente eu prefiro a noção humana plena de liberdade que diz “faz o que dá prazer”
Marx – Tu defines a liberdade como sendo a plena realização das possibilidades existente no homem. Ora isso está muito próximo do socialismo: o ser socialista será livre quando o homem se tiver transformado.
Bakunine – Mas se não deixarem ao homem desenvolver-se, o que tem de melhor em si não poderá vir ao de cima.
Marx – Em termos burgueses e liberais estás prestes a propagandear toda a filosofia liberal e burguesa, pois não é isso que dizem o Adam Smith e os seus acólitos? Abandonai os homens a si mesmos e eles darão o que têm de melhor: o que se concretiza, de resto, naquela famosa frase “laissez faire…”
Bakunine – Tu ignoras sempre o facto que os liberais preconizam e defendem a propriedade privada assim como a concorrência económica, ao passo que eu luto para que tudo deva ser colocado em comum.
Marx – Mas se tu partes do princípio que cada homem deve contar com o seu próprio e precioso direito privado à liberdade individual, rapidamente chegarás à conclusão que haverá sempre alguém que queira subtrair alguma coisa ao património comum, reclamando-o como seu. Não podes ter a liberdade individual completa sem também reclamar a propriedade individual. O que é que tu dirias a um homem que reclamasse a propriedade individual.? E o que é que farias sem a existência de um Estado ou de uma outra autoridade socialista capaz de obrigar os recalcitrantes e os antisociais?
Bakunine – Mas não foste tu, Marx, que disseste que o homem socialista mudaria, que ele abandonaria os seus impulsos egoístas antinaturais, assim como os hábitos herdados da sociedade burguesa.
Marx – O meu homem socialista transformar-se-á, mas duvido muito que algum dia possa reconhecer o teu homem socialista. Tu concebes os homens enquanto indivíduos, cada qual tendo o seu próprio império de direitos. Eu, pelo contrário, penso na humanidade no seu conjunto. A liberdade, tal como eu concebo, está na libertação da espécie humana, não na liberdade do indivíduo.
Bakunine – Mais uma vez és o porta-voz de Hegel quando este fala sobre liberdade: agir livremente significa agir moralmente, e agir moralmente significa agir de acordo com a razão do Estado.
Marx – Hegel não estava enganado. Só um ser razoável pode ser livre, porque um ser razoável está em condições de decidir face a uma alternativa. Uma escolha irracional não é uma livre escolha. Agir livremente é agir razoavelmente, e agir razoavelmente implica o conhecimento das necessidades impostas pela natureza e pela história. Não há, confesso, antítese entre necessidade e liberdade.
Bakunine – Não estamos a falar do livre-arbítrio, Marx, o que estamos a falar é da liberdade política. E aí não há qualquer complexidade metafísica. A liberdade política depende da supressão da opressão política, e não é preciso saber muito de filosofia para chegar a essa conclusão. Até uma criança de nove anos de idade pode distinguir entre um opressor e um oprimido.
Marx – E até uma criança de nove anos pode ver que os problemas não se resolvem nem desaparecem, se abolirmos bruscamente o Estado. A criança poderia aderir ao anarquismo, mas não me custava nada perdoar-lhe …esta loucura.
Bakunine – Existe uma loucura filosófica como uma loucura infantil. Todo o juízo abstracto sobre a liberdade não nos conduz senão àquilo para onde foram parar Hegel e Rousseau: à convicção que os homens podem ser livres, desde que estejam sob uma direcção.
Marx – Certíssimo. Nós queremos que os homens sejam livres no sentido em que os podemos obrigar a agir razoavelmente, ou, pelo menos, a evitar que possam agir de modo pouco razoável.
Bakunine – Uma liberdade imposta não é digna desse nome.
Marx – É a realidade que importa, não os homens.
Bakunine – Até que enfim, que falas da realidade! Se te convém obrigar os homens a ser livres, tu és levado a pensar em duas categorias de indivíduos: os que determinam, e os que são determinados. Daí à formação de duas classes, que compõem a sociedade pretensamente sem classes, no socialismo autoritário é um passo: os dirigentes e os dirigidos., os que ocupam os lugares de direcção e os que estão na base.
Marx – Hipoteticamente, certas pessoas devem ser superiores a outras. Eu repito e insisto: no início uma sociedade socialista deve ser regulamentada. A alternativa será a torre de Babel: um mundo no qual ninguém sabe o que deve fazer ou esperar, um mundo sem ordem nem esperança. Anarquia significa caos, e o caos horroriza-me. Se o caos te atrai, Bakunine, é porque tu te sentes atraído pelo perfume luxuriante da boémia. Depois da tua dura juventude no seio de uma família privilegiada, e educado em escolas militares, é compreensível que a desordem te atraia.
Bakunine – Tu falas, Marx, de “socialismo vulgar”, mas tu é que tens uma noção vulgar de anarquismo. Para os espírito não preparados o termo anarquia significa caos e desordem, mas para um homem instruído este vocábulo tem origem grega e quer dizer simplesmente oposição ao governo. Pensar que a ausência de governo significa caos e desordem é uma pura superstição. Repara como as nações mais bem organizadas da Europa não são aquelas cujo governo mais pesa sobre os cidadãos. Muito pelo contrário, são aquelas cujo governo mais passa despercebido. Não percebo o que pretendes dizer com isso da boémia. De resto, não sinto particularmente atraído pela desordem.
Marx – Mas não és tu que falas veementemente do sangue, do fogo, de destruição
Bakunine – É por puro zelo da luta. Talvez que eu seja mais impaciente que tu relativamente ao dealbar da revolução, mas eu garanto-te que os anarquistas, mais do que ninguém, desejam ardentemente o estabelecimento de uma ordem socialista.
Marx – Um tal desejo é perfeitamente supérfluo, uma vez que fora do Estado não haverá ordem. A vossa revolução só trará massacres e ruínas, nada mais.
Bakunine – E a tua pseudo-revolução, Marx, deixar-nos-á uma coisa bem pior: a escravatura.(Tradução do francês dos excertos do texto Diálogo imaginário Marx-Bakunine difundido há alguns anos atrás na BBC, e cuja autoria é de Maurice Cranston)Texto em francês foi publicado no jornal Alternative Libertaire nº 89, Avril de 1987

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