Polícia grega toma prédio ocupado há 23 anos e prende 101 anarquistas

O Villa Amalias, no centro de Atenas, era palco de eventos culturais e de resistência ao neonazismo; ação deve desencadear protestos em toda a Europa.

Mais de cem pessoas foram presas na Grécia por movimentos de ocupação, um deles mantido há 23 anos

O movimento anarquista e antiautoritário grego perdeu nesta quarta-feira (9/1) um de seus principais pontos de encontro no centro de Atenas. A ocupação Villa Amalias, que existia há 23 anos como palco de eventos culturais, com aulas gratuitas de teatro, dança e idiomas, foi tomada pela polícia grega. Ao todo 101 pessoas foram detidas, desencadeando uma enxurrada de protestos em toda a Europa.

A primeira investida policial em mais de duas décadas contra o Villa Amalias aconteceu no dia 20 de dezembro, com base em uma denúncia anônima, quando soldados entraram na ocupação e prenderam oito pessoas. Ontem, membros do grupo anarquista decidiram retomar o prédio, que continuava vazio. A polícia reagiu com bombas de gás lacrimogêneo. Não há, por enquanto, denúncias de maus tratos contra os presos.

Em resposta à ação policial, uma corrente de solidariedade do movimento antifascista europeu já marcou manifestações em frente às embaixadas gregas na Europa para o dia 19 deste mês. A Grécia, em crise profunda e com o tecido social esgarçado, vive uma ascensão neonazista institucionalizada pelas mãos do partido Aurora Dourada, de extrema-direita, que tem laços estreitos com a polícia local, conta com 18 cadeiras no Parlamento e defende a expulsão de imigrantes do país.

Segundo fontes ligadas ao grupo anarquista, ouvidos pelo Opera Mundi, os membros da ocupação Villa Amalias, que ficava entre as estações Omonia e Agios Panteleimonas do metrô, na Praça Victoria, vinham fazendo rondas no bairro para proteger moradores imigrantes das investidas dos neonazistas e realizando eventos para reunir gregos e estrangeiros com problemas financeiros, como sopões e eventos culturais.

Para eles, a insistência da polícia em desocupar o edifício, abandonado desde 1973, tem relação direta com o memorando de austeridade assinado pelo governo grego, em obediência à troika, composta por Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI (Fundo Monetário Internacional), e com uma retaliação do Aurora Dourada à tentativa dos anarquistas de minimizar suas ações no bairro.

Especulação imobiliária

O prédio do século 19 era, há mais de três décadas, alvo de disputa judicial entre a Prefeitura de Atenas e uma organização estatal de ensino público, que será dissolvida por ordem do memorando do FMI. A construção, encontrada pelos anarquistas em estado “lastimável”, ainda em 1990, tem ótima localização e deve ser vendida em um futuro próximo, abrindo caminho para a especulação imobiliária.

“Em contraste com eles [a prefeitura de Atenas e a organização de escolas] que veem edifícios e espaços públicos como mais uma arena para lucrar, a ocupação Villa Amalias é o exemplo concreto da criação de espaços sociais livres, que se opõem a qualquer tipo de exploração financeira”, afirmou o movimento anarquista, em nota.

O texto continua: “Para nós, essa ação é uma escolha política explícita do Estado. Em tempos de crise financeira e sistêmica, o Estado lança ataques em todas as direções, degradando a vida daqueles que estão mais vulneráveis e tentando se livrar de qualquer célula de resistência e da criação da negação.”

De acordo com a polícia, a primeira iniciativa de desocupar o prédio partiu de uma denúncia anônima sobre um suposto comércio de drogas no local. Os anarquistas negam. O Ministro da Proteção ao Cidadão e à Ordem Pública, Nikos Dendias, disse à imprensa grega, segundo o blog Keep Talking Greece, que “a sociedade democrática não permitirá que os poderes da ilegalidade e do caos atrapalhem o caminho da recuperação [econômica] da Grécia”.

Os anarquistas tentaram reocupar o prédio, mas a polícia respondeu com novas detenções

O país, com uma dívida batendo na casa dos 190% de seu PIB, vive há cinco anos a pior crise financeira de sua história. O desemprego entre os jovens de 18 a 25 anos passa dos 50%. Eleito no ano passado, o governo do premiê Antonis Samaras, do partido Nova Democracia, de centro-direita, assentiu à regras impostas pela troika para rolagem da dívida e os prognósticos indicam que o país deve permanecer na zona do euro e arcar com os custos sociais da cartilha de austeridade.

Mais ocupações e prisões

Em solidariedade aos anarquistas do Villa Amalias, cerca de 40 pessoas ocuparam ontem a sede do partido Esquerda Democrática, alinhado com o governo pró-austeridade.  Eles estenderam uma bandeira antiautoridade sobre a fachada do partido, fizeram panfletagem e, em seguida, foram retirados pela polícia. O Esquerda Democrática condenou a ocupação de sua sede e classificou a atitude como “antidemocrática”, mas decidiu não prestar queixa.

Ao mesmo tempo, outras 80 pessoas tentaram retomar a ocupação Villa Amalias e a maioria acabou detida, segundo a rede de notícias independente RBNews. Outra ocupação anarquista, a Skaramaga, também foi evacuada pela polícia e oito pessoas acabaram presas.

No final da noite desta quarta-feira, a polícia confirmou que 92 pessoas da ocupação Villa Amalias continuarão presas e responderão pelos crimes de perturbação da paz, insultos e resistência às autoridades. Elas foram enquadradas em uma lei aprovada recentemente, que proíbe pessoas de cobrirem o rosto durante manifestações.

Novo recorde de desemprego

A agência oficial de estatísticas da Grécia (Elstat) registrou nesta quinta-feira (10/1) mais um recorde de desemprego no país. Segundo dados de outubro deste ano, um total de 1,3 milhão de gregos estão sem trabalho, ou 26,8% da população, o que significa que mais 36 mil pessoas perderam o emprego em um mês. Para efeitos de comparação, o índice em outubro de 2011 era de 19,7%.

Os indicadores mais preocupantes continuam sendo os de desemprego entre jovens de 15 a 24 anos, que também bateram recorde. Em outubro, 56,6% dos jovens estavam desempregados e sem perspectivas. Na camada entre 25 a 34 anos, 34,1% estão sem trabalho.

Fonte: http://operamundi.uol.com.br

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