A maconha é porta de entrada para outras drogas?









Argumento simplório, utilizado à exaustão. Reproduzindo o comentário do proibicionista Marcos Susskind em debate realizado pela Folha de São Paulo: “Usuários de cocaína, de crack, de heroína e de outras drogas ilícitas, 80% deles usaram maconha antes de usar a outra droga”. Ainda, o de Mina Carakushasnky, diretora da World Federation Against Drugs: “Pessoas que usam maconha não usam necessariamente outras drogas, mas todas as que usam cocaína, heroína, ecstasy, crack, começaram usando maconha”.

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Qual é a semelhança entre a maconha e a cocaína, ou entre a maconha e o ecstasy? São drogas (substâncias químicas que produzem alterações nos sentidos) cujo uso é predominantemente recreativo. O álcool também é considerado uma droga, e as bebidas alcoolicas são utilizadas de forma recreativa. No Brasil, 68,7% das pessoas entre 12 e 65 anos já fizeram uso de substância alcoolica, e 11,2% dos brasileiros são dependentes do alcool, de acordo com o Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID). Já o consumo de maconha representa 2,6% da população (dados da ONU de 2005, defasados). A relevância desses dados para o debate é que o argumento de que 80% dos usuários de outras drogas “começaram” com a maconha é absurdo, ao constatarmos que o número de usuários de álcool é grande a ponto de inferirmos que todo usuário de drogas “começou” com o álcool. E considerando o número extremamente baixo de usuários de maconha e extremamente alto de usuários de álcool, podemos inferir que o uso de álcool não é porta de entrada para o uso de outras drogas, apesar de ser a primeira substância entorpecente da maioria dos brasileiros.

O que tornaria, então, a maconha “porta de entrada” para a utilização de outras drogas? Ora, a única coisa que todas as drogas ilícitas tem em comum e diferem do álcool é justamente a ilicitude. Se algo torna a maconha porta de entrada para outras drogas, é justamente o caráter ilícito de sua produção, venda e uso. Talvez a transposição para a busca de entorpecentes no mercado ilegal seja, por si só, a porta de entrada para o uso indiscriminado de quaisquer drogas. Essa suposição leva a crer que a legalização da produção, venda e uso da maconha tem o condão de fechar uma porta para outras drogas, não abri-la ainda mais. O absurdo do argumento é querer supor que a legalização da droga aumentaria ainda mais a “introdução” para outras substâncias ilegais, quando a única razão para seu caráter “introdutório” é justamente a sua ilegalidade.

Para finalizar o argumento, um estudo publicado em 2006 pela Universidade de Pittsburgh que acompanhou 214 jovens durante dez anos chegou à conclusão que o uso da maconha não foi fator preponderante para a utilização de outras drogas, o que é um indício importante de que a falácia utilizada não só depõe a favor da legalização, como não possui base científica sólida. É um perigoso argumento a posteriori que se utiliza da ignorância para aterrorizar a população, vendendo a maconha como o primeiro passo para uma vida massacrada pelo poder destrutivo das drogas.

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