Joe Hill – Joseph Hillström

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Joe Hill, nascido Joel Emmanuel Hägglund, e também conhecido como Joseph Hillström (7 de outubro de 18791 ou 18822 – 19 de novembro de 1915) foi um anarcossindicalista, compositor, músico libertário nascido na Suécia e radicado nos Estados Unidos, país em que fez parte da organização libertária Industrial Workers of the World (IWW, também conhecida como Wobblies). Foi executado por assassinato após um julgamento controverso. Depois de sua morte, foram compostas diversas canções folk em sua memória.

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Vida pregressa e atividade na IWW

Hill nasceu na cidade de Gävle, capital do condado de Gävleborg, Suécia. Ele emigrou para os Estados Unidos em 1902, onde se tornou um trabalhador migrante, foi da cidade Nova Iorque até a cidade de Cleveland, no estado de Ohio, e eventualmente até a costa oeste. Ele estava em São Francisco, Califórnia, na época do terremoto de 1906. Hill se juntou à organização Industrial Workers of the World ou Wobblies em meados de 1910, quando estava trabalhando nas docas em San Pedro, Califórnia. No final de 1910 Hill escreveu uma carta para o jornal da IWW, o Industrial Worker (Trabalhador Industrial), se identificando como um membro da IWW de Portland, Oregon.

Hill tornou-se importante no interior da IWW e passou a viajar por todo o país, organizando os trabalhadores sob a bandeira do anarcossindicalismo, escrevendo canções políticas e poemas satíricos, e realizando palestras. Suas músicas frequentemente se apropriavam de melodias familiares das músicas de seu tempo. Entre outras, Joe Hill compôs o verso “pie in the sky” (torta no céu), que aparece em sua canção “The Preacher and the Slave” (O Padre e o Escravo) parodiando o hino religioso “In the Sweet Bye and Bye”. Outras canções notáveis escritas por Hill são “The Tramp”, “There is Power in the Union”, “Rebel Girl”, e “Casey Jones: Union Scab”.

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Em 2015, fazem 100 anos que Joe Hill foi assassinado pelo Estado. Quase ninguém o conhece e quando sabe alguma coisa dele, é devido ao fato de que Joan Baez (a belíssima) cantou uma música em sua homenagem durante o Woodstock. Dá pra ver sua apresentação aqui:

Eu tenho me sentido ligado a esse antigo operário anarquista e cantor de folk, a quem alguns atribuem o surgimento da música de protesto. Hill nasceu em 1879, na Suécia, mas foi radicado nos EUA e era bastante atuante na Internacional dos Trabalhadores (IWW), tendo composto muitas músicas para a sua classe.

Ele nasceu em 07 de outubro (data em que eu também nasci exatamente 100 anos depois) e foi fuzilado com 36 anos em 1915. É uma questão matemática, mas ainda assim estranha, pois no centenário de sua morte eu irei completar a idade exata em que ele foi assassinado.

Como dizia Utah Phillips, um outro cantor folk vinculado à Internacional, mas de uma geração bem posterior, Joe Hill, como trabalhador, cantava pra ajudar os seus companheiros de trabalho a definir seus problemas e a definir também as soluções para os seus problemas.

Uma das principais músicas que ele fez foi a música The Preacher and The Slave, cujos primeiros versos eu traduzo aqui:
“Pregadores de cabelos compridos saem todas as noites,
para te dizer o que é errado e o que é certo;
Mas quando você lhes pede algo para comer;
Eles irão responder com vozes tão doces:
REFRÃO:
Você vai comer
Na terra gloriosa que há acima do céu;
Trabalhar e rezar, viver no feno,
Você vai comer uma torta no céu quando morrer.

Dá pra ouvir a canção aqui na voz de um outro grande cantor folk também envolvido na internacional dos trabalhadores, Cisco Houston, porque Joe não nos legou nenhuma, nenhuma sequer gravação de suas músicas:

A história do Joe Hill é bem foda porque ele foi baleado no mesmo dia em que duas pessoas foram assassinadas em Salt Lake City, estado de Utah, e os assassinos foram feridos pela polícia. O médico que atendeu Joe Hill informou à polícia que havia atendido no dia um homem baleado, e Joe Hill foi acusado de assassinato duplo.

Ninguém acreditou que ele tinha mesmo matado aquelas duas pessoas. Mas, Joe Hill jamais disse, durante o julgamento, por quem e por quê ele foi baleado. Ele dizia que era o direito dele não prestar informações de sua vida pessoal para o Estado.

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O seu advogado de defesa disse em uma apelação que o único motivo do Estado querer condená-lo era porque ele era um membro da temida Internacional dos trabalhadores. E que sendo parte dela, é obvio que ele era já de antemão culpado.

Utah Phillips, um outro cantor de folk, membro da Internacional dos trabalhadores, disse em um show que Joe Hill foi morto por suas músicas, que efetivamente causavam muito incômodo na época, uma vez que pisavam em todo o status quo (Igreja, Estado, Propriedade, etc).

De todo modo, não havia efetivamente prova nenhuma (a arma do crime não foi encontrada e nada ligava Joe Hill aos assassinados nem ao local do crime. Ao mesmo tempo, muitos outras pessoas apareceram baleadas em Salt Lake City naquele dia, embora nenhuma outro fosse parte da Internacional ).

Os protestos contra o julgamento por parte dos operários foram grandes, de tal modo que mesmo o presidente dos EUA, na época o Woodrow Wilson, pediu por clemência. Mas, o Estado de Utah negou. Não havia provas, mas, faltava para Joe Hill um álibe que ele recusava a apresentar.

Anos depois, um biógrafo de Joe Hill, William Adler, numa biografia de 2011, descobriu uma carta, que não foi usada no julgamento (me parece porque o próprio Joe Hill não quis que a usassem), de uma mulher chamada Hilda Erickson.

Na carta, ela explicava que era amante de Joe Hill e também de seu amigo Otto Appelquist, sem que um soubesse do outro, e que Joe Hill havia lhe confessado que havia sido Otto, ao descobrir que Joe também era amante de Erikson, quem o baleou naquele dia. A carta mostrava assim que o tiro que Joe Hill havia levado não fora do policial, mas de seu amigo, e que portanto ele não havia assassinado ninguém.

É possível que Joe Hill apenas não quisesse expor sua amada e, quem sabe, o ex-amigo, publicamente e por isso tenha aceitado, ao se calar sobre o que havia ocorrido, a pena de morte por homicidio duplo.

Foi fuzilado em 19 de novembro de 1915. Mas, antes disso ele escreveu uma poesia intitulada My Last Will (Meu último desejo), que foi musicada, anos depois por Ethel Raim, outro compositor das lutas, ficando conhecida para a posteridade como Joe Hill’s last will.
E dizia assim:

My will is easy to decide,
For there is nothing to divide.
My kin don’t need to fuss and moan,
“Moss does not cling to a rolling stone.”

My body? Oh, if I could choose
I would to ashes it reduce,
And let the merry breezes blow,
My dust to where some flowers grow.

Perhaps some fading flower then
Would come to life and bloom again.
This is my Last and final Will.
Good Luck to All of you,
Joe Hill

A tradução seria mais ou menos assim:

Minha vontade é fácil de decidir,
Pois não há nada a se dividir.
Meus parentes não precisam mexer e gemer,
“Musgo não se apega a uma pedra que rola.”

Meu corpo? Ah, se eu pudesse escolher
Eu o reduziria a cinzas,
E deixaria a brisa soprar alegre
Minha poeira para onde algumas flores crescem.

Talvez alguma flor murcha, em seguida,
Viria à vida e floresceria novamente.
Esta é a minha última e definitiva vontade
Boa sorte a todos vocês,
Joe Hill

Joe Hill também havia escrito uma carta a um amigo, um dia antes da sua morte, em que ele dizia: “Don’t waste time morning for me, organize”. “Não perca o tempo da manhã por mim, organize”.

No dia em que ele foi fuzilado, a polícia encontrou uma bomba de dinamite na propriedade do presidente da Standard Oil Company, e concluiu que a bomba havia sido plantada por anarquistas como protesto contra o fuzilamento de Joe. O corpo de Joe Hill foi cremado e no seu funeral compareceram em torno de 20.000 trabalhadores.

Ainda hoje, eu fico perturbado com o silêncio de Joe Hill em seu tribunal. Como ele pôde preferir a morte a se salvar? Acho que constantemente somos colocados nesta situação, de saber que não somos culpados, mas que é melhor se calar e deixar que o Estado faça o que ele está destinado a fazer: assassinar os lutadores, suas canções e suas lutas.

Em 1989 foi encontrado um envelope com as cinzas de Joe Hill. Acontece que o Abbie Hoffman… peraí, pois este cara precisa de um parênteses. Quem é Abbie Hoffman? Ele era um ativista que se tornou símbolo da geração de 68. Um incidente lendário que ele provocou foi quando subiu no palco do The Who durante o Woodstock e disse “Eu acho que isto aqui é um monte de merda. Enquanto John Sinclair apodrece na prisão…”. Nessa hora, o Peter Townshed estava mexendo no amplificador de guitarra e ao ouvir o Abbie falando isso, gritou o interrompendo: “Fuck off. Vaza do meu palco”. E enfim, partiu pra cima do Abbie, o expulsando dali. Depois ainda anunciou que qualquer outro que invadisse aquele palco seria morto. Nenhuma câmara gravou o incidente, mas o áudio sim. E o The Who colocou em um disco deles lançado 30 anos depois. Dá pra ouvir aqui:

Acontece que o Abbie Hoffman lançou a ideia de que os cantores folks de protesto modernos, como Billy Bragg, um cara que eu sou fã há um tempão, e Michelle Schoked, deveriam comer estas cinzas.

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Mas, Billy Bragg havia se lembrado que Michelle, que era uma cantora bem atuante, tinha se tornado cristã e estava cantando músicas religiosas. Desse modo, ele achava que não seria a vontade de Joe Hill ir parar na barriga de uma religiosa.

Então ele chamou Otis Gibbs, um cantor de folk de protesto, também envolvido em lutas sociais, para dividir com ele as cinzas de Joe Hill. Assim o fizeram. Dizem que eles tomaram as cinzas de Hill em um copo de cerveja e andam espalhando por aí, como queria Joe Hill, suas flores em forma de canção.

Otis Gibbs fez um disco intitulado Joe Hill’s Ashes (Cinzas de Joe Hill), cuja primeira música é essa linda canção aqui, que infelizmente, não se encontra a letra em lugar algum da internet:

Billy Bragg também cantou músicas em homenagem a Joe Hill, uma delas é essa:

Mas, a melhor versão desta música é mesmo a original feita por Phil Ochs

Agora, em 2015, que é aniversário do centenário de sua morte, Joe Mccucheon, outro cantor folk, está gravando um album com 20 músicas de Joe Hill. Ele fez o projeto “Joe Hills last will” para arrecadar fundos para este disco e fazer o disco de forma independente, sem gravadora, afinal, seria uma contradição terrível fechar com a indústria da música. O seu propósito é tornar Joe Hill e suas músicas conhecidas.
https://www.kickstarter.com/projects/1821176249/joe-hills-last-will-a-new-recording-by-john-mccutc

Para ajudar este projeto, outro grande cantor folk Si Kahn, que já tinha feito uma música para Jon Hill, fez uma outra canção:

Enfim, o projeto foi um sucesso e arrecadou a grana toda já. O disco deve ser lançado este ano.

Conclusões

Não sei que relevância isso tem hoje, nem porque essas histórias me interessam tanto. Acho que talvez seja o que há por trás de todos estes cantores folks que sempre se recusaram, como dizia Woody Guthrie (aquele que Bob Dylan já quis ser e que ele próprio quis ser Joe Hill), a se afastar das massas de trabalhadores que sofrem. É pra eles que eles cantam e, afinal, eles mesmos fazem parte desta massa que tinha que vender sua força de trabalho para viver.

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Há muita música panfletária que só expõe os clichês e jargões das ideologias de esquerda. Mas, o que estes cantores folks fizeram é muito mais que isso. É uma coisa realmente viva, e você pode sentir em suas melodias, no modo como cantam, que tudo aquilo o que falam é vivo, com substância, e foi cravado em suas almas por uma vida cheia de dores e de sofrimento próprios da condição de trabalhadores. O folk foi uma forma, uma forma da classe trabalhadora expor seu sofrimento e suas dores, e condenar a condição em que vivia, e convidar seus companheiros de classe a se unirem à luta, a não aceitarem tanta exploração e sofrimento. Não gritavam jargões, mas apresentavam um ponto de vista único, vindo desde baixo, de quem tinha inteligência adquirida por terem vivido lá, no seio do monstro, conhecendo como ninguém as suas entranhas.

O folk quando canta sempre distorce a voz, em uma forma que para muitos brasileiros é insuportável, mas que expressa esta sensação de sofrimento em suas músicas. Mesmo as notas que saem do violâo, do banjo ou da gaita, são verdadeiros lamentos. No violão e nos backing vocals, por exemplo, o folk constantemente abusa da chamada TERÇA. Em uma harmonia, a quinta é que é a nota perfeita, aquela que se acomoda exatamente com a primeira nota. Mas, ao jogarem uma terça, criam um efeito, uma tensão, uma sensação de dissonância, mas não completa. Sempre no limite da música, como estiveram também na vida: no limite, na beira, no além, lá onde o capitalismo cobra da forma mais dura. Lá também, onde se aprende algo profundo sobre a vida.

Via: Tempos de Vândalos

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