Black Bloc – Estratégia de manifestação e protesto anarquista

Black bloc - Estratégia de manifestação e protesto anarquista

Black Bloc – Estratégia de manifestação e protesto anarquista

Sem uma organização fixa, um “black bloc” não existe enquanto grupo autônomo: membros de diversas organizações apresentam-se inseridos numa qualquer manifestação de protesto e distinguem-se por estarem vestidos de negro, de cara tapada e prontos para qualquer batalha campal.
O Black Bloc, ou Bloco Negro em português, é aquele grupo que está na frente das grandes manifestações em momentos de conflito. Não são eles que iniciam, são eles que seguram a carga da polícia de choque, o gás, as balas de borracha, e as verdadeiras também pra que os restantes manifestantes possam correr.

Para além da indumentária, a afinidade entre posições ideológicas das respectivas organizações é o que junta os participantes num “black bloc”. Maioritariamente, dirigem a sua ação para estabelecimentos de marcas internacionais e bancos.

“Aqueles que possuem autoridade, temem a máscara pelo seu poder em identificar, rotular e catalogar comprometido: em saber quem você é… nossas máscaras não servem para esconder ou ocultar a nossa identidade, mas para revelá-la… hoje nós devemos dar um rosto a essa resistência; colocando nossas máscaras mostramos a nossa união; e levantando as nossas vozes nas ruas, nós botamos pra fora toda a raiva contra os poderoso sem rosto…”
Tirado de uma mensagem imprimida dentro das 9000 máscaras distribuídas no dia 18 de junho de 1999, carnaval anti-capitalista, que destruiu o distrito financeiro central de Londres.

São a nossa Tropa de Choque, não são bandidos/marginais/vândalos como a média nos quer fazer crer, ao passar a imagem de que são terroristas para os desacreditar e dividir o povo. São a nossa defesa da mão pesada do Estado.
blackbloc molotov
Enquanto a maioria corre eles retardam o opressor ao máximo. São o grupo abnegado que zela pela segurança do resto da manifestação.
Ao que a Polícia e os media chamam violência, estes grupos chamam “ação direta”: destruição de propriedade para “vacinar” as autoridades locais contra futuras iniciativas, perturbação e interrupção dos trabalhos da cimeira e, no limite, a instigação de motins para “precipitar a insurreição” são alguns dos objetivos a que um “black bloc” pode aspirar, lê-se numa das páginas de Internet dedicadas a explicar o que é e como se faz um “black bloc”.

“Ao contrário de outras atividades completamente encobertas, pode criar situações voláteis, em que as ações de poucos podem levar a que outros se lhes juntem. Uma das muitas qualidades negativas do terrorismo é que, no máximo, consegue ser um desporto de bancada; um ‘bloc’, por outro lado, pode ser uma experiência participativa e contagiante de radicalização”, argumenta-se.
O “manual” indica ainda como reagir perante “os outros”, os manifestantes de “índole mais ‘liberal’ ou autoritária”, que podem ser também o inimigo, tal como a Polícia, atacando os membros de um “black bloc”, denunciando-os às autoridades.
“Nunca se deve reagir com violência. Uma ação direta que se transforma numa escaramuça com os habitantes locais ou outros ativistas é desastrosa para todos. Deve tentar-se resolver as diferenças falando, se possível”, recomenda o “manual de instruções”.
Ainda na mesma página, dão-se instruções detalhadas sobre como preparar e agir num “black bloc”, desde os acessórios de defesa (escudos, máscaras, lenços molhados com sumo de limão para enfrentar o gás lacrimogêneo) aos de ataque (sprays de tinta, fisgas, cocktails molotov ou alicates).
black Bloc
Se, por um lado, as máscaras e roupas negras permitem aos participantes num ‘black bloc’ reconhecerem-se e contarem com a força dos números, também dão à Polícia a oportunidade de introduzir agentes infiltrados, uma das críticas discutida entre os próprios movimentos que dão corpo a “black blocs”.
Apesar de hoje muitos dos contatos entre organizações se fazerem online, o “black bloc” não é uma invenção da era da Internet: desde o final dos anos 70 que grupos de protesto – ativistas anti-nuclear e anarquistas, por exemplo – mantêm esta tradição.
Os “black bloc” têm-se feito notar em reuniões internacionais de organizações como o G20 ou a Organização Mundial do Comércio.
Black Blocs pré-Seattle
Em novembro de 1999, a tática do Black Bloc parecia nova para muitos americanos porque, em parte, as ações e as idéias do movimento Autônomo europeu eram obscurecidas ou ignoradas pela mídia americana e quase nem foram divulgadas. Contudo, a ignorância pelo Black Bloc também provém do fato que muitos americanos recebem notícias de acontecimentos regionais de uma mídia manipuladora, a qual ignora quaisquer acontecimento que não servem para os seus propósitos, apresentando qualquer evento que tom o lugar como um espetáculo singular, desconectado do passado e do futuro, a ser esquecido em pouco tempo, mesmo se aconteceu recentemente.
Radicais nos EUA nunca foram totalmente ignorantes a respeito das idéias e ações dos Autônomos europeus, e o desenvolvimento da subcultura punk/hardcore, dos anos 80, nos EUA, se espelhou na cultura Autônoma. Desde o começo de 1990, anarquistas e outros radicais nos EUA, estavam usando máscaras nas passeatas e protestos, criando laços de solidariedade entre os manifestantes e o anonimato perante as autoridades.
Enquanto durava a Guerra do Golfo, um protesto nas ruas de Washington D.C. incluiu o Black Bloc, que quebrou as vidraças do prédio do Banco Mundial. Naquele mesmo ano, no Columbus Day, em São Francisco, um Black Bloc apareceu para mostrar à resistência militante, o contínuo genocídio da dominação norte-americana pelos europeus. Pessoalmente, o maior Black Bloc que eu já vi foi no M4M (millions for Mumia), na Filadélfia, em abril de 1999.
Eu diria que havia, no mínimo, 1500 vestidos de preto, mascarados e carregando faixas como: “Vegans por Mumia”. Apesar de não ter acontecido nenhuma batalha de rua e, particularmente, nenhuma destruição de propriedade privada, alguns garotos entraram em um estacionamento, ao longo da passeata, e subiram no teto, agitando a bandeira negra.O futuro global da máscara preta
O símbolo do militante autônomo mascarado se espalhou pelo terceiro mundo. Ao mesmo tempo que o NAFTA, política econômica destrutiva neoliberal foi declarado no dia 1 de janeiro de 1994, a revolta guerrilheira explodiu em Chiapas, um estado do sul do México.
O levante procurava criar espaços, para o desenvolvimento de uma organização social autônoma entre a marginalizada população indígena. A ala armada dessa luta pela autonomia comunitária e a democracia direta sem coerção ou hierarquia, tem sido e continua sendo, os Zapatistas, homens e mulheres que sam máscaras negras sempre que aparecem em público. Muitos autônomos e anarquistas têm os visitado e tentado ajudá-los com conhecimento, dinheiro, materiais, e criando solidariedade e atenção internacional para a situação em Chiapas.
Voltando a Alemanha, os Autônomos passam por tempos difíceis. Dizem por aí que os squatters anteriores tomavam conta de, no mínimo, 165 grandes apartamentos na Alemanha Ocidental, mas até 1997, sobraram apenas 3 apartamentos. Legalizar alguns squats enquanto brutalmente despejavam outros, funcionou como política eficiente para o Estado-polícia. Muitas pessoas que vivem em squats legalizados estão impedidos de virar o jogo, encorajando e expressando solidariedade com estratégias praticadas por outros squatters, e essa marginalização deixa mais fácil a derrota squatter, nas batalhas urbanas, pelas crescentes forças policiais.
O ressurgimento do neo-nazismo, no que um dia foi Alemanha Ocidental, e em outras áreas do país significou maiores problemas para os Autônomos alemães. Eles enfrentam a violência e o assassinato de ataques neo-nazistas, onde essas gangues policiam as ruas como uma “tropa contra punks e imigrantes”.
A maior parte do tempo e esforço dos Autônomos, vai para a organização de ações e grupos anti-fascistas, mas isso também significa negligenciar as tarefas para o desenvolvimento de alternativas para uma sociedade anti-autoritária, um dos objetivos originais dos Autônomos. “Antifa” ou grupos anti-fascistas levam os Autônomos a confrontos ainda mais violentos com a polícia alemã, que basicamente apoia os grupos neo-nazistas e sua ideologia nacionalista, racista –isso quando oficiais da polícia não estão diretamente ligados a grupos fascistas.
Rumores dizem que muitos militantes na Europa Sententrional, onde o Black Bloc têm sido uma estratégia de manifestação comum, têm desistido ao mesmo tempo que paravam de atingir seu objetivo. O poder de repressão estatal tem desenvolvido e usado forças tecnológicas, legais e físicas ainda maiores para isolar, observar, perseguir e localizar os envolvidos com os Black Blocs. Um processo semelhante está acontecendo nos EUA, com o ressurgimento das táticas ao estilo COINTELPRO, tendo como alvo os radicais que se opõe ao império estatal americano de capitali$mo globalizante.
Mesmo que o Black Bloc continue como estratégia, ou seja abandonado, certamente, serviu ao seu propósito. Em certas épocas e lugares, o Black Bloc efetivamente, levou as pessoas a agir em solidariedade coletiva contra a violência do capitalismo e do Estado. É importante que nós não fiquemos presos à nostalgia como um ritual ou uma tradição ultrapassada, nem rejeitar tudo porque, ás vezes, parece inapropriado.
Em vez disso, devíamos continuar lutando pragmaticamente (e teoricamente), para preencher nossa necessidades e desejos individuais através de várias táticas e objetivos, quando elas forem apropriadas ao momento específico. “Disfarçar-se” como um Black Bloc tem sua hora e seu lugar, assim como as outras estratégias que se confrontam com ela…
Destak/Lusa | www.midiaindependente.org

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