Aspectos Anárquicos de Chuang Tzu

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Quando tratamos da memória em relação à dimensão anárquica da política humana, na névoa espessa do passado muito se perdeu. Pergaminhos foram queimados, sábios foram mortos, histórias de movimentos libertários da antiguidade foram perdidas e jamais serão contadas novamente. Os poderes de todas as eras são em grande parte responsáveis por este apagamento. Reinos, impérios e estados para se manterem sempre buscaram apagar a dissidência, especialmente aquela que questionava não só as pessoas nos cargos de poder, mas toda a estrutura hierarquica da qual estes cargos dependiam e faziam parte.

O que chega até nós nos dias de hoje são os vestígios de diferentes épocas, deste grande legado que – não tanto por sorte, quanto por empenho dos perpetuadores – sobreviveram a censuras dos poderosos de diferentes eras. Este é o caso do antigo tesouro que toma forma nos canones do Taoismo filosófico. Esta tradição filosófica anárquica surgida na China da antiguidade é tão antiga que se perde em meio às lendas. Os poderosos não puderam acabar com ela, uma vez que durante milênios o Taoismo se fundiu com o culto aos ancestrais, estando tão disseminada entre a população que lutar contra ela seria como numa praia pelear conta as águas e as areias.

Nela tomam parte inúmeros sábios que na sua época, através da cultura oral, bem como da escrita, buscaram eles próprios manter as histórias e ideais de sábios que vieram antes, os chamados homens autênticos da antiguidade da antiguidade, sobre os quais pouco se sabe.

Na filosofia oriental é chamado ‘mestre’ – não uma pessoa que seja dona e senhora da outra pessoa – mas alguém que tão inspirador que por sua singularidade e sabedoria, se torna exemplo por vontade alheia de ser seguido. Assim era Chuang Tzu (Zhuāngzǐ – 莊子), um mestre que teria caminhado pelo mundo no século IV antes da era cristã. Muitas histórias são contadas sobre ele, muitas de suas palavras se encontram registradas em versos como é comum nas tradições orientais. O reverenciam como exemplo de profunda sabedoria, um sem número de sábios de épocas posteriores até os nossos dias.

Seus ensinamentos são valorizados pelos adeptos das diversas escolas do Taoismo (filosóficas e religiosas), por Zen Budistas, por filósofos e pensadores do ocidente. Grandes nomes da atualidade – entre estes Jung, Osho e Krishnamurti – se debruçaram sobre ela em busca de conhecimentos e da verdade.

É possível afirmar sobre a vida de Chuang Tzu, que buscou coerência com o que acreditava. Sua vida se deu de forma simples e sincera. Foi alguém que atraiu discípulos entre as pessoas de inteligência apurada, e raiva entre os estúpidos. Pode-se dizer também que desprezava os estadistas e que, mais de uma vez, foi perseguido, não tanto por seu desprezo, quanto pelo medo e pela inveja sentida pelos poderosos em relação ao interesse e admiração que despertava por onde quer que fosse. Medo e inveja são características comuns nas cortes de todas as épocas, infestadas de pessoas com poder e posses para adquirir quase de tudo, mas nunca, paz de espírito e iluminação.

Dois versos de sua obra – ‘A Fênix e a Coruja’ e ‘A Tartaruga’, partes integrantes de ‘A Via de Chuang Tzu’ – são particularmente ilustrativos, não apenas do medo e da inveja sentida pelos poderosos, mas também das saídas sutis, inteligentes e bem humoradas encontradas pelo sábio, para lidar com os infortúnios.

Em ‘A Fênix e a Coruja’ Chuang Tzu acaba sendo alvo de intriga do primeiro ministro do reino de Liang que acreditando que o sábio desejava seu posto e conspirava contra ele, o manda prender. No entanto os guardas não encontram Chuang Tzu, que talvez fosse também um grande ocultista. Sabendo da intriga o mestre decide acabar com ela com uma visita ao primeiro ministro. Diante do político lhe pergunta ele conhece a fábula sobre o encontro entre a fênix e uma coruja. A primeira – o mestre a descreve – é uma ave sagrada, imortal que jamais envelhece, pousa somente em certas árvores, come apenas frutas raras e mata a sede nas fontes celestes. Uma coruja mastigando um rato apodrecido certa vez se depara com a fênix voando sobre ela e com medo de ter-lhe a refeição roubada emite piados atônitos. A resposta da fênix vem em forma de pergunta, e analogia inteligente cabe exatidão para demonstrar a visão do sábio em relação as preocupações do ministro:

“Por que estais tão nervoso
Apegando-se tanto a vosso ministério,
E pipilando para mim
Assim consternado?”

Um ministério, o mais alto posto estatal antes do rei, nada mais é que um rato morto para um sábio. Seus interesses e inspirações estão muito além de honrarias e postos de comando.

Em ‘A Tartaruga’ Chuang Tzu acaba sendo importunado quando pescava as margens do rio Pu por dois emissários do princípe de Chu. Traziam um documento nomeando Chuang Tzu primeiro ministro do reino. Respostas adequadas, para o sábio, passavam por metáforas afiadas. Sem sequer deixar a pescaria ou tirar os olhos do rio, conta aos emissários ter ouvido uma a história sobre uma tartaruga sagrada, que há 3 mil anos empalhada, é adorada num altar, cercada de incensos, sedas e ouro do palácio do príncipe. Então pergunta a eles:

“‘É melhor abandonar a vida
E deixar uma concha sagrada
Como objeto de culto
Numa nuvem de incenso
Três mil anos,
Ou viver
Como simples tartaruga
Arrastando o rabo na lama?’
‘Para a tartaruga’, disse-lhe o Emissário,
‘É melhor viver
E arrastar a cauda na lama!’
‘Retire-se!’, disse-lhe Chuang Tzu.
‘Deixe-me aqui
A arrastar a minha cauda na lama!'”

Ser um ministro para o sábio taoista significa perder a liberdade. Perder a liberdade e se tornar objeto de culto é como perder a própria vida. Não havendo luxo ou honraria que substitua a ambas, é melhor viver sentado na lama do que morrer idolatrado em um altar. Vida e liberdade são indissociáveis no taoismo.

Os dois versos demonstram o desprezo de Chuang Tzu pelos políticos e estadistas. Como o próprio Chuang Tzu resume em outro verso chamado ‘Sinfonia a um pássaro selvagem’, “Não é possível falar a um hábil político como se ele fosse um sábio.” Porque por mais hábil que seja o político e, ainda que em sua habilidade ele demonstre inteligência, por estar apegado ao seu prestígio, e ter uma visão estreita em relação a valores, em torno de títulos e privilégios, o político é incapaz de perceber o ônus e o peso daquilo que valoriza e venera, que lhe toma a vida e a liberdade. Políticos, na visão do sábio, dificilmente são capazes de compreender que há coisas mais interessantes e profundas para quem sendo sábio e autêntico, escolhe caminhar desperto e com os pés no chão, longe da via hierárquica, que põe em risco sua vida, e cerceia sua liberdade.

Nos versos ‘Arrombando o Cofre’ Chuang Tzu nos apresenta sua visão sobre o estado. O Estado se perpetua basicamente através do roubo. É assegurado por meio de selos, contratos, pesos e medidas, invenções que desde que surgiram, favorecem e legitimam a ação criminosa dos estadistas. Chuang Tzu trata também de como ensino do amor e do dever (para com a pátria, o reino ou estado) garante a apropriação da linguagem conveniente que ‘transforma’ este roubo que favorece aos estadistas em bem comum a todos os cidadãos.

“A invenção
De pesos e medidas
Facilita o roubo.
Assinar contratos, colocar selos,
Assegura o roubo.
O ensino do amor e do dever,
Linguagem adequada
Que prova que o roubo
É realmente para o bem comum.

O sábio lembra ainda que há dois tipos de roubos e para cada tipo uma forma distinta de tratamento. Estes tipos dependem do grau de riqueza e influência que possui o ladrão.

“Um homem pobre deve fugir
Ao roubar uma fivela de cinto.
Mas se um rico rouba todo um estado
É aclamado
O estadista do ano.”

Quem quer que se depare com a lucidez e a atualidade desta afirmação não pode deixar de notar que a crítica anárquica de Chuang Tzu ao estadismo é atemporal. Deste entendimento podemos afirmar sem sombra de dúvida que em todos os tempos, os estados foram corruptos e que, a falácia de combate a corrupção dentre do estado nada mais é que uma forma do próprio estado corrupto se perpetuar propagandeando uma imagem de estado utópico e de estadista idealizado. Não faz sentido tentar combater a corrupção dentro do estado, já que o estado é ele próprio o fruto e a flor da corrupção, se funda e se perpetua pelo roubo e pela enganação.

Há outros aspectos anárquicos a se destacar como na apresentação que Chuang Tzu faz dos ‘homens autênticos’ da antiguidade, mentes livres, de vida simples e de longa caminhada, despreocupada, desconhecedores dos luxos e honrarias, expectativas e frustrações.

“O que vem a ser um homem autêntico?
Os autênticos homens antigos não tinham medo
Quando ficavam a sós com suas opiniões.
Nenhuma grande proeza.
Planos, nenhum.
Se falhassem, nenhuma compaixão.
Nenhuma auto-congratulação no sucesso.
Escalaram rochedos, sem nunca sofrerem vertigens,
Mergulharam na água, sem nunca ficarem molhados,
Andaram no fogo e não se queimaram.
Assim, toda a sabedoria atingiu o Tao.
Os autênticos homens antigos
Dormiam sem sonhos
Acordavam sem preocupações.
Sua comida era simples.
(…)
Não conheciam o luxo da vida,
Nenhum medo da morte.
Sua entrada era sem contentamento,
Sua saída,
Sem resistência.
Fácil de começar, fácil de terminar.
Não se esqueceram de onde,
Nem perguntaram para onde,
Nem foram tristemente à frente
Lutando pela vida afora.
Aceitaram a vida como é, felizes.
Aceitaram a morte como se apresenta, despreocupados.”

Há ainda o esforço simpático em ‘O Homem Soberano’ afirmando que soberania é não intervenção, é algo que está acima da riqueza e da honraria. Nestes versos como em outros textos do canon taoista, aos governantes é dado o conselho para que não governarem

Meu Mestre disse:
Tudo que age em tudo, e em nada se imiscui – é o céu…
O Homem Soberano reconhece isto, esconde-o no coração,
Torna-se ilimitado, de mente larga, tudo atrai a si.
E assim, deixa o ouro permanecer oculto na montanha,
Deixa a pérola repousar nas profundezas.
Bens e posses não são vantagens à seus olhos,
Ele está acima da riqueza e da honraria.
A vida longa não é alvo para a alegria, nem morte prematura à tristeza.
O sucesso não é para ele orgulho, o erro não é vergonha.
Tivesse ele todo o poder no mundo, não o consideraria seu,
Conquistasse tudo, não o levaria consigo.
Sua glória está em saber que tudo está resumido no Uno
E que a vida e a morte são idênticas.

Estes foram apenas alguns aspectos da visão anárquica presente de ‘A Via de Chuang Tzu’. Existem vários outros nesta mesma obra, e tantos mais em diversos escritos do Canon Taoista dos quais seria possível tratar. Há muito ainda a ser dito na relação evidente que existe entre anarquia e taoismo. Alguém poderia afirmar que faltam boas traduções, que não há muitas pessoas dispostas a leitura minuciosa e divulgação, e este alguém teria suas razões. Não existem ainda no meio anarquista – que em sua maioria desconhece o Taoismo – espaços de estudo e diálogo em torno deste legado libertário milenar. Independente disso, os escritos que formam o Canon Taoista, graças a Internet, nunca estiveram tão acessíveis. Basta algumas palavras em qualquer buscador para se deparar com uma infinidade de materiais.

Este artigo, além de servir de estímulo a leitura de obras do Taoismo filosófico como ‘A Via de Chuang Tzu, é também uma homenagem aos libertários de eras passadas e a todos aqueles que através de seus esforços permitiram que este legado chegasse até nós, nos dias atuais.

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