Angola: Nação dominada por uma elite rica e podre

Uma economia de petróleo que oferece oportunidades só para alguns.

 

No hall de entrada com piso de mármore da sede da Sonangol, emissários do leste e oeste vêm em busca de acesso a uma indústria de energia que luta por ser a maior de África.
O arranha‐céus de vinte e três andares, propriedade do estado, paira sobre Luanda, um monumento para uma empresa – e para um país – que está à procura do seu lugar no palco mundial.
A história da Sonangol é a história de Angola ‐ ou, pelo menos, de uma Angola. Durante o conflito civil que começou com a independência em 1975 e só terminou há dezanos, a empresa forneceu o Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA) com seus cofres de guerra.
Em tempos de paz, dirigiu a bonança do petróleo para tornara economia de Angola a terceira maior do seu continente a sul do Sahara, depois da África do Sul e Nigéria. Ainda assim, como a Sonangol de Angola domina a vida comercial, com interesses bancários abrangendoimóveis, uma carteira de investimentos internacionais, uma companhia aérea e uma equipa de futebol, a elite tem um controlo apertado que lhe permite acumular uma fortuna fabulosa.

Angola

A maioria dos 20milhões de pessoas do país só testemunha a partir de uma posição de penúria que o dinheiro do petróleo não está a ajudá‐los. “Um dos grandes desafios, e que se refere a mim e à minha geração, é realmente o de diversificar a fonte de renda”, informa Manuel Vicente, que dirigiu a Sonangol durante 12 anos até à sua transferência em janeiro, para se tornar oministro de Estado para o desenvolvimento económico de coordenação. “Até agora, o petróleo é o principal pilar, mas é um recurso não renovável e temos que aproveitar esse recurso para promover outras atividades.”
A economia de Angola tem sido uma das que mais cresceu no mundo durante a última década darecuperação pós‐guerra. Mas, apesar da agitação entre investidores estrangeiros sobre o seu enorme potencial, contínua a ser a economia menos diversificada do continente, de acordo com o Banco Africano de Desenvolvimento. Os preços do petróleo elevados forneceram uma taxa média de crescimento de 11 por cento entre 2003 e o ano passado, mas a indústria incentiva a corrupção e sufoca os setores que poderiam criar emprego em massa, tais como a industriae a agricultura.
O petróleo pode fornecer 97 por cento da receita de exportação e três quartos da receita do governo, mas emprega apenas 1 por cento da mão‐de‐obra. Um país que já foi um produtor próspero, com terras suficientes para cobrir toda a Bélgica, importa pelo menos 70 por cento dos bens que consome. “O nosso medo é que, em 10 anos, se não fizermos um bom trabalho na diversificação da economia, atingiremos os limites do crescimento económico em Angola”, informa Manuel Alves da Rocha, economista da Universidade Católica de Angola.
O governo investiu cerca de US $ 150 mil milhões na última década, lançando as bases para umaeconomia mais ampla: ferrovias, pontes e estradas suficientes que dariam meia volta ao equador. Os doadores têm contribuído para remover minas terrestres, mesmo que o progresso tenha abrandado quando entregaram a tarefa ao governo.
Mais dinheiro de petróleo vem a caminho. Descobertas recentes levam o Sr. Vicente a prever que a produção de petróleo vá quase dobrar de 1,8 milhão de barris por dia no ano passado para 3,5 milhões de barris por dia até ao final da década. “Angola é para nós uma terra de sucesso”, informa Jacques des Grottes Marraud, diretor de exploração de produção Africana para a Total, o maior produtor do país. “É um dos melhores lugares para nós em termos de crescimento.” A floresta tropical de guindastes amarelos e azuis que se eleva acima de Luanda tem engrossado nos últimos anos; as empresas de construção chinesas, brasileiras e locais erguem torres e hotéis de 5 estrelas e blocos de apartamentos de luxo elevam‐se por cima das favelas onde, provavelmente, três quartos dos moradores da capital vivem.
“O problema neste país é a diferença entre os que têm e os que não têm”, informa um funcionáriointernacional. “E parece estar a aumentar em vez de diminuir.” Para os angolanos mais velhos, a paz é tudo. A maioria está preparada para engolir as suas dúvidas sobre os mil milhões de dólares que passaram dos cofres do estado para os bolsos privados, temendo que a dissidência fossecortejar novos conflitos.
Mas Angola tem uma das populações mais jovens do mundo, sendo quequarenta e sete por centotem menos de quinze anos. O desemprego, que é de vinte e seis por cento no geral, atingiu cinquenta por cento entre os jovens. A maioria tem apenas cinco anos de escolaridade. Ainda assim, habituadosjá à ausência de guerra, os jovens, como aqueles que jogam dados numdomingo de manhã na estrada em N’dalatando, uma cidade no interior a duzentos quilómetros deLuanda, exasperam com a ausência de oportunidades.
Xavier Baptista, um aluno de dezassete anos de idade, matriculadonodécimo primeiro ano, diz que sonha com uma carreira na indústria de petróleo ou bancária, mas não sabe como lá chegar. Seguir o caminho dos seus pais e trabalhar para o governo, ganhando pouco, não é o suficiente. O cinismo sobre o grupo dos governantes de Angola é palpável. “Eles trabalham em primeiro lugar para si, para que possam ficar muito ricos”, diz Xavier.
“Então,depois, talvez pensem um pouco sobre o resto da população.” A corrupção está a espalhar‐se para fora de um círculo em torno da presidência cuja maioria dos membros já deve ser várias vezes multimilionária. “Está‐se a tornar uma cultura”, informa Maria Lúcia da Silveira daAssociação de Justiça, Paz e Democracia. “[As pessoas] já nem sequer escondem esse facto.” Cita um estudo feito à construção pública encomendada pelo CMI (Chr. Michelsen Institute) daNoruega, fundação de pesquisa, que constatou que a corrupção acrescenta vinte e cinco a trinta por cento ao custo final da construção.
Inquéritos do Banco Mundial encontraram um grande salto de 2006 a 2010 no número de empresas a informar que o principal obstáculo à realização de negócios é a corrupção. Entre eles a elite, o Estado, interesses pessoais e particulares, campos de diamantes controlados por generais e pelos parceiros locais que, secretamente, são propriedade de altos funcionários e atribuídos às empresas de petróleo de grupos estrangeiros. Edward George, especialista em Angola, informa que o estilo do regime é de “criptocracia”, no qual as alavancas do poder estão escondidas.
O Fundo Monetário Internacional estima que 4,2 mil milhões de dólares estãoainda a faltar das contas de 2007‐10. Os detalhes dos chamados “bónus de assinatura” para direitos sobre o petróleo são descurados, bem como os vastos projetos de infraestruturasque a China International Fund realiza, propriedade de um grupo pouco conhecido de investidores de HongKong. A frustração aumentada vem pela primeira vez transformando‐se em protestos generalizados. Alguns foram recebidos com violência esporádica.

No entanto, existe pouca dúvida de que José Eduardo dos Santos, Presidente desde 1979, triunfará nas eleições marcadas para 31 de agosto. Independentemente da realização das eleições, é improvável que Angola tenha pretendentes em falta. Angola tem‐se posicionado atrativamente para investimento das nações dos Bric, liderada pela China com o seu pacto de US $ 10 mil milhões de petróleo em troca de infraestrutura.

A corrupção está a tornar‐se uma cultura, refere a ativista Maria Lúciada Silveira
Potências ocidentais querem Luanda como um aliado, sejam quais foremas preocupações de Direitos Humanos. Agindo como um fundo soberano, a Sonangol projecta a riqueza petrolífera dopaís no exterior, reforçando a sua influência internacional. Manuel Vicente diz: “Não há nenhuma intenção de ser uma potência em ascensão, para desempenhar um grande papel na África, para ser forte e tentar fazer tudo isso.
É só para tentar gozar de paz, para desfrutar de desenvolvimento, isso é o que nós queremos.”Alguns, especialmente aqueles com conexõe sao palácio presidencial, certamente estão a desfrutar da paz. Xavier e a sua geração ainda estão à espera.
Financial Times
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