Anarquismo – o inimigo do rei e do Estado ainda vive

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Há uma grande confusão em torno da palavra anarquismo. Muitas vezes a anarquia é considerada como um equivalente do caos e o anarquista é tido na melhor das hipóteses como um niilista, um homem que abandonou todos os princípios e, às vezes, até confundido com um terrorista inconseqüente. Muitos anarquistas foram homens com princípios desenvolvidos; uma restrita minoria realizou atos de violência que, em termos de destruição, nunca chegaram a competir com os líderes militares do passado ou com os cientistas nucleares de hoje.
A origem da palavra anarquismo envolve uma dupla raiz grega: archon, que significa governante, e o prefixo an, que indica sem. Portanto, anarquia significa estar ou viver sem governo. Por conseqüência, anarquismo é a doutrina que prega que o Estado é a fonte da maior parte de nossos problemas sociais, e que existem formas alternativas viáveis de organização voluntária. E, por definição, o anarquista é o indivíduo que se propõe a criar uma sociedade sem Estado.
O conceito de sociedade sem Estado é essencial para a compreensão da atitude anarquista. Rejeitando o Estado, o anarquista autêntico não está rejeitando a idéia da existência da sociedade; ao contrário, sua visão da sociedade como uma entidade viva se intensifica quando ele considera a abolição do Estado. Na sua opinião, a estrutura piramidal imposta pelo Estado, com um poder que vem de cima para baixo, só poderá ser substituída se a sociedade tornar-se uma rede de relações voluntárias.
As raízes do pensamento anarquista são antigas. Doutrinas libertárias que sustentavam que, como ser normal, o homem pode viver melhor sem ser governado, já existiam entre os filósofos da Grécia e da China Antiga, e entre seitas cristãs heréticas da Idade Média. Filosofias cuidadosamente elaboradas e que eram totalmente anarquistas começaram a aparecer já durante o Renascimento e a Reforma, entre os séculos XV e XVII, e principalmente no século XVIII, à medida que se aproximava a época das revoluções Francesa e Americana, que deram início à Idade Moderna.
Como movimento ativista, buscando mudar a sociedade por métodos coletivos, o anarquismo pertence unicamente aos séculos XIX e XX. Houve épocas em que milhares de operários e camponeses europeus e latino-americanos seguiram as bandeiras negra ou rubro-negra dos anarquistas, revoltando-se sob a sua liderança e estabelecendo modelos transitórios de um mundo livre, como na Espanha e na Ucrânia durante períodos da revolução. Houve também grandes escritores, como Shelley e Tolstoi, que expressaram idéias essenciais do anarquismo em seus poemas, novelas e artigos. O sucesso do anarquismo, porém, variou muito porque ele é um movimento e não um partido. É um movimento que tem mostrado grande poder de renovação. No início da década de 60, parecia estar esquecido, mas hoje parece ser outra vez, como em 1870, 1890 e 1930, um fenômeno relevante.
Talvez a melhor forma de começar uma pesquisa sobre as atividades anarquistas é com o primeiro homem a aceitar o título de anarquista: Joseph Proudhon, um profeta intelectual que declarou: “Ser governado é ser zelado, inspecionado, doutrinado, aconselhado, controlado, assediado, pesado, censurado e ordenado por homens que não têm direito, nem conhecimento ou valor para tanto. Isto é o Estado, esta é sua justiça, esta é sua moral.”
Proudhon foi um gráfico autodidata, da província montanhosa de Franche-Conté, na França, que em 1840 publicou o livro Qu’est-ce que la proprieté? (O que é a propriedade?), que se tornou extremamente importante nos círculos radicais do século XIX e foi usado inclusive por Marx, que mais tarde tornou-se inimigo de Proudhon. A resposta de Proudhon à pergunta feita a respeito do título do seu livro foi: “Propriedade é roubo”. E essa expressão, que identifica o capitalismo e o Estado como os dois principais inimigos da liberdade, tornou-se um dos principais slogans do século.
Proudhon participou da Revolução Francesa de 1848 e foi graças à sua influência que a famosa e infeliz aliança dos socialistas europeus, a Associação Internacional dos Trabalhadores, mais conhecida como Primeira Internacional, foi fundada em 1864, no ano anterior à sua morte. Os livros de Proudhon forneceram a infra-estrutura intelectual para o movimento anarquista europeu. Michael Bakunin, que se tornou o maior ativista anarquista, sempre se referia a Proudhon como “o mestre de todos nós”.
Talvez o fato mais significativo sobre Proudhon é que, apesar de sua influência e de seus adeptos, ele se recusava a estabelecer uma doutrina dogmática, como a que Marx transmitia a seus seguidores. Quando um admirador lhe cumprimentava pelo seu sistema, ele respondia indignado: “Meu sistema? Eu não tenho sistema!” Ele não acreditava em estruturas teóricas nem em estruturas estatais. As doutrinas, para ele, nunca eram completas. Suas formas e seu significado mudavam conforme a situação, e ele sustentava que a teoria política, como qualquer tipo de idéia, estava num processo de evolução constante.
Proudhon também negava que houvesse fundado um partido político. Para ele, todos os partidos eram “variedades do absolutismo”. No sentido formal isto era verdade, embora ele tenha reunido um grupo de discípulos do qual surgiu o primeiro movimento anarquista. Sua ação, quando foi eleito para a Assembléia Constituinte da França durante a Revolução de 1848, esteve relacionada à sua rejeição à idéia de partido político. Ele estava entre a pequena minoria de representantes que votou contra a Constituição aprovada pela Assembléia. Ao explicar suas razões, enfatizou que não votou contra uma forma específica de constituição: “Votei contra a constituição porque era uma constituição”. Assim, ele eslava reafirmando sua rejeição às formas fixas de organização política.
As atitudes de Proudhon durante a década de 1840, em questões relacionadas ao sistema, ao partido ou à organização política, não se refletiram apenas nas idéias dos primeiros pensadores libertários, como William Godwin, que igualmente levantou estas objeções. Elas também anteciparam, antes do nascimento do movimento anarquista atual, a atitude que este adotaria quanto às formas de ação política. Portanto, nunca foi possível falar no anarquismo como sistema político ou filosófico, como o marxismo, que entende que as obras de um homem que morreu em 1883 fornecem respostas infalíveis a todos os problemas. O anarquismo nunca foi representado por um partido político porque seus seguidores queriam manter a sua liberdade de agir frente a situações concretas e consideravam que os partidos políticos tinham os mesmos erros dos governos. Os anarquistas consideram as constituições como sistemas políticos fixos, que fortalecem o Estado e institucionalizam o exercício do poder. Essas idéias não são aceitas pelos libertários, que acreditam que a organização da vida comunitária, a nível político, deve ser substituída por uma organização social e econômica baseada num acordo livre entre os indivíduos.
A liberdade não é algo para ser protegido e decretado por leis e Estado. É algo que se faz para si mesmo e que se reparte com os outros. O Estado e a lei são seus inimigos e, de cada ângulo do pensamento anarquista, essa é uma opinião unânime. O Estado é nocivo, e não traz a ordem, mas o conflito. A autoridade impede os impulsos naturais e faz com que os homens sejam estranhos. Em 1793, em seu grande livro Justiça política, William Godwin levanta a questão: “O Estado lança suas mãos contra a elasticidade da sociedade e pára seu movimento. Dá consistência e permanência aos novos erros. Ele reverte as tendências naturais do nosso pensamento e, ao invés de nos permitir olhar para a frente, nos ensina a procurar a perfeição no passado. Ele nos induz a buscar o bem-estar público sem inovação e melhoramento, mas em nítida reverência aos nossos ancestrais, como se fosse da natureza humana sempre degenerar e nunca avançar.”
A argumentação dos anarquistas sobre as formas de organização fixas e autoritárias não significa que neguem a organização como tal. O anarquista não é um individualista no sentido estrito da palavra. Ele acredita que a liberdade só pode ser conservada pelo desejo de cooperar e pela realidade da comunidade. O anarquista se recusa a ser dirigido pelo passado e aceita a conseqüência desta recusa. Ele não espera que o futuro seja determinado pelo presente e por isto não se pode identificar o anarquista com o utopista. A característica essencial do pensamento utópico é a criação de uma sociedade ideal, além da qual não haverá nenhum progresso, nenhuma mudança, porque o ideal é, por definição, perfeito e, portanto, estático. Os anarquistas sustentam que não podemos usar nossa experiência do presente para planejar o futuro, onde as condições podem ser bem diferentes. Se exigirmos liberdade de escolha, devemos esperar a mesma exigência de nossos sucessores. Podemos apenas tentar eliminar as injustiças que conhecemos.
O anarquista é, na verdade, um discípulo natural do filósofo grego Heráclito, que postulava que a unidade da existência consiste na sua constante mudança. “Sobre aqueles que entram no mesmo rio”, disse Heráclito, “as águas que fluem são constantemente diferentes.” Essa é uma boa imagem do anarquismo, já que exprime a idéia de uma teoria cheia de variações, que se move entre as margens dos conceitos comuns. Portanto, mesmo havendo diferentes opiniões anarquistas, existe uma filosofia definida, assim como uma tendência anarquista reconhecida. Essa filosofia envolve três elementos: uma crítica à sociedade como ela é, uma visão de uma sociedade alternativa e um planejamento para pôr em prática esta transformação.
A sabedoria chinesa tinha sido descoberta recentemente pelos anarquistas. Para eles o conceito da unidade da lei natural veio da antiguidade clássica, através dos neoplatônicos, da Alexandria helênica e pela redescoberta deste antigo pensamento durante a Renascença e o conseqüente desgaste da cosmogonia hierárquica da Idade Média. Por esta época, os anarquistas haviam assimilado a idéia essencial da Grande Cadeia da Vida. Deus havia sido retirado do seu lugar ou racionalizado no princípio da harmonia. Provavelmente o indivíduo mais influente na transmissão deste conceito foi o escritor suíço Jean-Jacques Rousseau, autor das famosas Confissões.
Rousseau foi acusado de protoliberal, protocomunista e proto-anarquista. Muitos de seus críticos, julgando apenas o seu lado autoritário, consideraram-no o principal responsável pela deificação do Estado que surgiu na Revolução Francesa e em todas as subseqüentes. Sua teoria de um contrato social implícito, pelo qual a autoridade fora estabelecida no passado e comprometera as gerações seguintes, era repugnante para os anarquistas que tinham a idéia de um futuro livre. Todos os principais teóricos anarquistas, de Godwin a Kropotkin, criticaram-no duramente. Apesar das objeções à idéia de um contrato social primitivo, um grande grupo de anarquistas deriva de Rousseau, com sua ênfase romântica na espontaneidade, sua idéia de educação como o desenvolvimento do que é latente na criança de forma que os instintos naturais para o bem e sua percepção das virtudes primitivas são desenvolvidos.
A despeito de Rousseau não ser o primeiro escritor a esboçar o conceito do nobre selvagem, é evidente que os anarquistas receberam principalmente dele sua predileção pelo homem pré-civilizado. Seus, artigos descreviam várias sociedades primitivas capazes de conciliar suas obrigações sociais e até mesmo criar culturas razoavelmente elaboradas sem recorrer, pelo menos abertamente, a um sistema de autoridade. O pensamento anárquico está claramente resumido numa frase de Rousseau: “O homem nasceu livre e está acorrentado em toda parte”.
Essencialmente, os anarquistas acreditam que, se o homem obedecer às leis naturais da sua própria espécie, será capaz de viver em paz com seus semelhantes. Em outras palavras, o homem pode não ser naturalmente bom mas, segundo os anarquistas, é naturalmente social. São as instituições autoritárias que deformam e atrofiam seus tendências cooperativas. Durante o século XIX, essa idéia foi apoiada por várias teorias da evolução, que foram sendo gradualmente aceitas até o final do século com a publicação da marcante Origem das espécies, de Charles Darwin, em 1859.
O gigantismo e a impersonalidade do Estado moderno são rejeitados pelo anarquismo. Os anarquistas querem criar um companheirismo entre indivíduos e eliminar o distanciamento entre os homens e o início das atividades sociais necessárias.
Isto é sustentado na teoria da democracia participante proposta por radicais americanos que foram influenciados, direta ou indiretamente, por idéias anarquistas. A descentralização anarquista e a democracia participante foram criticadas porque ambas induziriam à fragmentação da sociedade. O teórico anarquista responderia que a descentralização significa a fragmentação do Estado, e isto fortaleceria a sociedade e os laços entre seus membros: A alienação social moderna que decorre do controle das grandes corporações é a pior forma de fragmentação social. Induzindo os indivíduos a cooperarem regularmente nas decisões específicas, a descentralização eliminará a alarmante atomização das comunidades modernas, que as torna dependentes de uma autoridade como, por exemplo, um policial.
Portanto, longe de pregar o colapso da sociedade com a destruição do Estado, os anarquistas querem reforçar os laços e os valores sociais através do fortalecimento das relações comunitárias nos níveis mais básicos. Sua idéia é reverter a pirâmide do poder, representada pelo Estado. Entendem que a responsabilidade começa entre indivíduos e pequenos grupos, e não da autoridade que desce do céu político pela escada da burocracia. A principal unidade da sociedade é a em que as pessoas cooperam diretamente para satisfazer suas necessidades imediatas. Ninguém pode avaliar melhor essas necessidades do que aqueles que as sentem. Esta unidade nuclear básica toma várias formas entre os escritores anarquistas. Godwin denominou-a paróquia; Proudhon, comuna; os sindicalistas, fábrica. O nome não é importante, o que interessa é o fato da colaboração direta e consulta entre indivíduos intimamente envolvidos numa fase da vida.
Aqui deve-se fazer um parênteses e determinar a diferença vital entre anarquistas e marxistas, pelo menos da forma como os marxistas têm atuado. Por causa da teoria de Marx, do domínio do fato econômico na exploração do homem pelo homem, seus seguidores tendem a ignorar as características vitais de outras formas de poder. Como resultado, eles não apenas elaboraram a teoria da ditadura do proletariado, mas também provaram sua invalidade deixando que a ditadura se tornasse um mesquinho governo partidário em todos os países comunistas. Ao ignorar os processos do poder, os revolucionários que se diziam seguidores de Marx destruíram a liberdade com tanta eficácia como qualquer bando de generais sul-americanos.
Os anarquistas têm a irônica vantagem sobre os marxistas de nunca haverem estabelecido uma sociedade livre de acordo com seus ideais, a não ser por pouco tempo e em áreas restritas e, portanto, não podem ser acusados de falhas na sua evolução. No início da década de 1870, Bakunin e seus seguidores profetizaram que o erro marxista em não entender que o poder tem bases econômicas e psicológicas levaria à recriação de uma nova forma de Estado. Reconheciam que as desigualdades econômica e política eram interdependentes, e desde o início atacavam o que Godwin denominava de “propriedade acumulada”, da mesma forma que criticavam o governo centralizado. Por isto, os anarquistas eram os verdadeiros descendentes das seitas heréticas da Reforma que associavam a condenação do governo terreno com um tipo de comunitarismo. Godwin substitui a idéia de justiça, como faria Proudhon depois dele, pela de divindade, mas seu raciocínio fazia parte essencialmente da tradição oposta.
As sementes dos grandes movimentos anarquistas estão no que pareciam vidas medíocres e conflitos pequenos e insignificantes. Certamente, um viajante do tempo que retornasse aos cafés de Paris e aos ordinários quartos de hotel do Quartier Latin, onde se reuniam os revolucionários, no início da década de 1840, dificilmente reconheceria os homens que se tornariam os grandes nomes do século.
A França era novamente uma monarquia, porém governada pelo mais liberal dos Bourbons, Luís Felipe, o chamado rei-cidadão e, naquela época, durante a efervescência que culminaria com a Revolução de 1848, Paris deu asilo àqueles que fugiam de regimes mais duros. Podia-se encontrar federalistas espanhóis, carbonários italianos e poloneses que conspiravam para restabelecer seu país, então dividido entre a Rússia, Prússia e Áustria-Hungria. Havia muitos russos que fugiram à tirania do tzar Nicolau I, e um número de alemães que abandonaram a Prússia e pequenos estados da Renânia.
Entre os mais obscuros expatriados que viviam nesta atmosfera de conspiração e expectativa, havia um russo e um alemão que eram vistos juntos freqüentemente e, às vezes, em companhia de um jornalista radical que tendia a se misturar com os revolucionários estrangeiros. Eram todos pobres e jovens e, como se reuniam de madrugada, ninguém detectava as longas sombras que estavam lançando ao futuro.
O sólido francês, de sobrecasaca verde, com larga cara de camponês, orlada de suíças, era Pierre-Joseph Proudhon, que havia recém-doado ao século XIX um de seus grandes gritos de batalha: “Propriedade é roubo!”. Já havia se declarado um anarquista, foi o primeiro homem a aceitar o rótulo com orgulho e desafio. O russo, um nobre falido, de grande estatura e encanto, era Michael Bakunin, que se ocupava em incitar à insurreição as minorias eslavas no Império Austríaco. Havia atraído a atenção por um ensaio intitulado Reação na Alemanha, em que resumiu os paradoxos existentes na teoria anarquista. “Devemos confiar no episódio eterno que destrói e aniquila apenas porque é a inatingível e eternamente criativa fonte de toda a vida. O impulso para a destruição também é um impulso criativo. ”
O alemão do trio era Karl Marx, notável criador de expressões históricas, que naquela época era a fonte mais irrepreensível da metafísica alemã. Sua contribuição para aquela união consistia, aparentemente, de longas exposições da filosofia de Hegel para o aperfeiçoamento de seus companheiros. Marx seria o ancestral do atual comunismo autoritário, apesar de ele e de Engels só haverem publicado o Manifesto comunista em 1848. Proudhon e Bakunin se tornariam os fundadores do anarquismo, como um movimento revolucionário social. Com o tempo, as animosidades iriam dividi-los, e mesmo em 1840 suas relações eram cautelosas. Existe uma correspondência entre Marx e Proudhon que levou ao rompimento de relações em 1846. Nela, discutem a possibilidade de estabelecer uma conexão entre revolucionários sociais, e a diferença na abordagem é claramente evidente, havendo um contraste entre o dogmatismo rígido de Marx e a flexibilidade exploratória de Proudhon. Bakunin registrou seus encontros com Marx em 1840.
“Marx e eu éramos amigos naquela época. Nos víamos com freqüência, pois o respeitava por sua sabedoria e devoção séria e apaixonada, ainda que com uma certa vaidade pessoal, à causa do proletariado, e o procurava por sua conversa sempre inteligente e instrutiva. Mas não havia intimidade entre nós. Nossos temperamentos não se adaptavam. Ele me chamava de idealista sentimental, e estava certo. Eu o chamava de vaidoso, traiçoeiro e ardiloso, e eu também estava certo!”
Por algum tempo Marx e os dois anarquistas foram da mesma opinião de que as grandes revoluções anteriores ao século XIX, como a Revolução Inglesa do século XVII e as revoluções Francesa e Americana do século XVIII, avançaram pouco em direção a uma sociedade justa, porque foram revoluções políticas e não sociais. Elas reajustaram o padrão de autoridade, dando poder a novas classes, mas não modificaram efetivamente a estrutura social e econômica dos países onde ocorreram. O grande slogan da Revolução Francesa, liberdade, igualdade e fraternidade, se tornou uma piada, uma vez que a igualdade política era impossível sem igualdade econômica. A liberdade dependia de que o povo não fosse escravizado pela propriedade, e a fraternidade era impossível através da brecha que no fim do século XVIII ainda dividia ricos e pobres.
Nem Marx, Bakunin ou Proudhon consideraram a possibilidade de que tais resultados pudessem ser herdados do processo revolucionário, cuja experiência no século XX sugere que sempre se impõe a substituição de uma elite por outra. Mas Proudhon e Bakunin entenderam mais claramente do que Marx que uma revolução que não se desfaz da autoridade criará sempre um poder mais penetrante e mais duradouro do que aquele a que substitui. Eles sustentavam que uma revolução sem autoridade, que destruísse as instituições poderosas e as substituísse por instituições de cooperação voluntária, poderia ocorrer.
Marx foi mais realista. Reconhecia o papel do poder nas revoluções, mas acreditava que era possível criar uma nova forma de poder, o poder do proletariado, através do partido, que ao fim se dissolveria e produziria uma sociedade anarquista ideal, a que ele acreditava ser o objetivo final do esforço humano. Bakunin estava certo ao acusar Marx de ter um excessivo otimismo ao profetizar que a organização política marxista se tornaria uma rígida oligarquia de funcionários e tecnocratas.
Quando Marx, Proudhon e Bakunin se encontravam no Quartier Latin tudo isso era futuro. Voltando ao passado, entre esses homens e a Revolução Francesa havia a geração dos chamados socialistas utópicos como Cabet, Fourier e Robert Owen. Estes reconheciam que a Revolução Francesa havia falhado ao abordar as questões radicais de injustiça social. Propunham como solução várias formas de socialização da riqueza e da produtividade. Denominavam-se socialistas utópicos porque queriam criar, aqui e agora, comunidades experimentais para demonstrar como funcionaria uma sociedade justa. De Proudhon em diante, os anarquistas foram influenciados de várias maneiras pelos socialistas utópicos, principalmente por sua noção de pequena comunidade como base da sociedade. A diferença entre eles é que os anarquistas rejeitavam o planejamento rígido dos socialistas utópicos, porque acreditavam que este conduziria a novas formas de autoridade. Argumentavam que havia um elitismo condenável na idéia de um socialista demonstrar ao povo como uma sociedade ideal deveria funcionar. O misticismo anarquista era baseado na idéia de que o homem pode criar espontaneamente, para si mesmo, as relações sociais e econômicas necessárias à sua vida. Não precisamos criar fórmulas sociais novas e artificiais, mas encontrar maneiras de ativar o povo para que, dos agrupamentos naturais e das tradições populares, se desenvolvam instituições apropriadas para uma sociedade livre.
Somente em 1860 essas aspirações começaram a aglutinar-se num real movimento anarquista. Durante a onda de revoluções que varreu a Europa em 1848, tanto Bakunin como Proudhon se envolveram. Bakunin tomou parte nos levantes em Paris e Praga, e lutou ao lado de Wagner nas barricadas em Dresden. Capturado na Saxônia, terminou prisioneiro do tzar na famosa fortaleza de Pedro e Paulo. Em 1861, escapou pela Sibéria, pelo Japão e pelos Estados Unidos para a Europa Ocidental, onde retomou a atividade revolucionária. Proudhon tomou parte na Revolução de 1848 e foi um dos primeiros a se desiludir da Assembléia Nacional. Rapidamente percebeu como a atividade parlamentar faz com que um indivíduo perca contato com o povo, e passou a maior parte do ano revolucionário fazendo inflamadas reportagens, numa série de jornais independentes: O Povo, O Representante do Povo e O Amigo do Povo. Esses jornais foram sucessivamente suprimidos porque as autoridades revolucionárias não toleravam seus ataques imparciais a todos os lados da nova república, que ele acusava de não ter imaginação. Proudhon também tentou organizar economicamente os trabalhadores no Banco do Povo, que era um tipo de União de Crédito onde os produtos e os serviços seriam trocados a preço de custo. Ele esperava que isto fosse o início de uma rede de relações livres entre produtores, como camponeses, artesãos e oficinas cooperativas, que substituiriam as relações comuns de mercado e libertariam o trabalhador da dependência econômica.
O Banco do Povo foi, provavelmente, a primeira organização de massa anarquista, tinha 27 mil membros quando Proudhon foi preso, em 1849, por suas críticas ao presidente recém-eleito, Luís Napoleão Bonaparte, que mais tarde se tornou imperador com o nome de Napoleão III.
Proudhon passou o resto de sua vida na prisão ou no exílio. Tornou-se uma minoria de uma pessoa. Justamente por ser independente, sua influência cresceu bastante durante o Segundo Império. No fim de sua vida, que se deu em 1865, escreveu Da capacidade política das classes trabalhadoras, no qual ele sustentava que os partidos políticos eram operados por membros de uma elite social e que os trabalhadores só controlariam seus próprios destinos quando criassem e controlassem suas próprias organizações para mudar a sociedade. Muitos trabalhadores franceses foram influenciados por essas idéias, formando um movimento que visava à regeneração da sociedade por meios econômicos. Se autodenominavam mutualistas, mas eram essencialmente anarquistas, que queriam atingir seus resultados pacificamente, através da cooperação entre produtores.
Das assembléias de 1862 a 1864, entre os discípulos franceses de Proudhon e os sindicatos ingleses, surgiu a Associação Internacional dos Trabalhadores, a Primeira Internacional. Os seguidores de Marx sustentavam que ele havia fundado a Internacional, mas, na verdade, não tomou parte das primeiras negociações. No encontro final em Londres, a 28 de setembro de 1864, onde a Associação foi estabelecida, Marx era apenas “uma figura muda na plataforma”, como ele próprio declarou.
Portanto, a Primeira Internacional nunca foi de maioria marxista. Incluía socialistas, vários tipos de anarquistas e pessoas que não eram de nenhum dos dois. Ninguém sabe quantos membros teve. Tanto seus defensores, como seus inimigos, por várias razões, tendem a exagerar seu número de sócios e sua influência. Não há dúvida que, principalmente nos países de língua latina da Europa Meridional, a Associação estimulou os operários e os camponeses a lutar por seus direitos, como nunca haviam feito antes. Mas, através de toda devoção e elevadas aspirações, a Internacional se tornou um campo de batalha de ideologias e de personalidades. Proudhon estava morto quando a Associação se tornou uma organização ativa, em 1865, e as diferenças que começaram a aparecer entre o trio de revolucionários, havia muitos anos em Paris, sobreviveram e se ampliaram na Internacional. O conflito entre Marx e os mutualistas, e, mais tarde, pessoalmente, entre Marx e Bakunin, não apenas refletiu diferenças de temperamento entre os protagonistas, mas também diferenças fundamentais de idéias, ou seja, de finalidades entre socialistas autoritários e anarquistas libertários. Marx e seus seguidores, que tinham melhor tática, conseguiram firmar-se em posição de poder organizacional. Foi Marx que redigiu as regras da Associação e obteve controle virtual do Conselho Geral, estabelecido em Londres. Sua influência nas sucursais, principalmente nos países latinos, não era tão forte, e os congressos anuais tornaram-se batalhas entre Marx e Bakunin, que liderava os contingentes espanhóis, italianos e franco-suíços. Já tendo criado uma irmandade secreta de revolucionários na Itália, Bakunin ligou-se à Internacional em 1868. Seus métodos como organizador eram excêntricos, mas curiosamente eficazes. Criou o maior movimento anarquista do mundo, na Espanha, mandando um engenheiro italiano a Barcelona, que sabia que nenhum espanhol possuía o carisma que tornasse a linguagem comum desnecessária. Anselmo Lorenzo, que mais tarde tornou-se líder dos anarquistas espanhóis, deixou uma fascinante descrição do incidente que Gerald Brenan citou no Labirinto espanhol.
O conflito na Internacional teve muitos aspectos. Era um duelo entre Marx e Bakunin. Era também uma batalha entre grupos latinos e germânicos. Mas as diferenças fundamentais não eram entre personalidades ou culturas. Se delinearam em debates intermináveis que consumiram os anos entre 1868 e a cisão, que destruiu a Internacional em 1872. Os marxistas sustentavam que a organização política visava à transformação do proletariado numa classe governante. Os anarquistas defendiam a organização espontânea dos trabalhadores de acordo com suas ocupações. Autoritários contra libertários, ação política contra ação industrial, ditadura do proletariado transitória contra abolição imediata de todos os poderes do Estado: o debate continuou, e os dois pontos de vista eram irreconciliáveis. O debate transformou-se em conflito. No Congresso de Basel, em 1872, os marxistas expulsaram Bakunin e transferiram o Conselho Geral para Nova York, onde ficaria fora do alcance dos anarquistas. Por isso, a organização morreu em 1874. Entretanto, os anarquistas estabeleceram sua Internacional rival, que sobreviveu aos restos marxistas por três anos e terminou em 1877.
O movimento anarquista sobreviveu como uma ideologia e não como organização em grupos isolados e indivíduos que se mantinham em contato, fazendo conferências que amedrontavam os doutores e raramente os unia. Alguns indivíduos dedicados e talentosos, como Peter Kropotkin e Errico Malatesta, moldaram a ideologia anarquista entre 1880 e 1900. Em um extremo estavam os seguidores de Leon Tolstoi, que pregava a resistência não-violenta, que influenciou Gandhi na sua estratégia do Satyagraha, ou desobediência civil, que finalmente deu independência à Í ndia. Outros devotaram-se às escolas livres ou às comunidades onde se tentava viver comunitariamente, sem as restrições impostas pela teoria utópica. Outros, ainda, buscaram a aliança entre o anarquismo e a revolução do movimento artístico que na mudança do século iniciou o movimento modernista na Europa e principalmente na França. Pintores como Pissarro, Signac, Valminck e o jovem Picasso se autodenominaram anarquistas, assim como o poeta Mallarmé e o escritor Oscar Wilde.
Durante um breve período que infestou a história do anarquismo, alguns indivíduos isolados praticaram o assassinato de personagens simbólicos, para chamar atenção à injustiça. Durante a década de 1890, foram vítimas desses estranhos e terríveis entusiastas um rei da Itália, um presidente da França, um presidente dos Estados Unidos, uma imperatriz da Áustria e um primeiro-ministro espanhol. A maioria dos anarquistas nada tinha a ver com tais atos e consideravam-no com sentimentos variados, até que muitos reagiram horrorizados, como o novelista anarquista francês, Octave Mirabeau, quando Emill Henry jogou uma bomba num café, matando pessoas inocentes. “Um inimigo mortal do anarquismo”, disse Mirabeau, “não poderia agir com mais perfeição que Henry quando jogou sua inexplicável bomba no meio de pessoas pacíficas e anônimas. Henry diz, afirma e declara que é um anarquista. É possível. Todo partido tem seus criminosos e seus idiotas, porque todo partido tem seus homens.”
O terrorismo morreu rapidamente como método anarquista, exceto na Espanha e na Rússia, onde todos os métodos políticos têm sido tradicionalmente violentos. Apenas alguns anarquistas o praticaram, e pensar que o anarquista é um homem com uma bomba é o mesmo que considerar um católico como um dinamitador por causa de Guy Fawkes*. Os movimentos são manifestados através das ações dos indivíduos, mas devemos distinguir uma pessoa de sua idéia, e a idéia do anarquismo nunca foi invalidada pelo extremismo de fanáticos.
O anarquismo do século XIX recuperou-se rapidamente dos danos causados pelos terroristas. No final do século teve sua fase de grande influência no desenvolvimento de um movimento de criação de uniões livres de sindicatos. O movimento se autodenominou anarco-sindicalismo. Sua idéia essencial era que os sindicatos deviam ser considerados não apenas instrumentos para conseguir melhores salários, mas agentes de transformação da sociedade. Os sindicatos estariam em constante luta pela mudança da sociedade através do método clássico da greve geral, tomando e administrando os meios de produção durante a revolução, para formar a infra-estrutura da nova sociedade.
O anarco-sindicalismo obteve sucesso na França, onde a CGT foi administrada por anarquistas até 1914. Houve grandes movimentos sindicalistas na Itália e na América Latina. Nos Estados Unidos, a Internacional dos Trabalhadores do Mundo (IWW) era sindicalista. Foi na Espanha que o anarco-sindicalismo, assim como o anarquismo, atingiu seu apogeu. Atraía os espanhóis por suas qualidades morais e idealistas; tornou-se não apenas um movimento político, mas tinha uma articulação quase religiosa de caráter puritano que lhes deu uma Constituição Substituta. O anarquismo surgiu com os operários de Barcelona, espalhando-se rapidamente entre os camponeses sem terras da Andaluzia e de Valência. Na década de 1930, no seu apogeu, a grande organização anarquista, a Confederação Nacional dos Trabalhadores (CNT), tinha mais de dois milhões de membros. A Espanha representou o auge do movimento anarquista do século XIX, se estendendo ao século XX, porque atingiu seu apogeu e seu fim durante a Guerra Civil Espanhola dos últimos anos da década de 30.
Na Espanha, os anarquistas demonstraram a eficiência de seus métodos de prática; falharam na coordenação do movimento numa escala maior. Por exemplo, em Barcelona, a tática anarquista nos conflitos de rua derrotou os generais de Franco. Similarmente, nas áreas rurais, os camponeses estabeleceram comunas livres, que mesmo seus críticos mais ácidos ficaram impressionados pela eficácia natural e pela resistência espartana dos grupos que viviam de acordo com os ensinamentos dos profetas comunistas do século XIX.
Toda essa camaradagem e auto-sacrifício, que demonstrava a possibilidade de prática da teoria anarquista por pequenos grupos, estava condenada a desaparecer porque a espontaneidade e a ação voluntária eram estranhas ao espírito de guerra, totalitário por natureza. Os anarquistas não puderam resistir aos fascistas que avançaram sobre as comunas do Sul, destruindo-as; nem aos comunistas que minaram a posição anarquista atrás das linhas republicanas. Dois anos de guerra e intriga política enfraqueceram os anarquistas espanhóis.
O movimento histórico criado por Bakunin e Proudhon morreu quando os exércitos de Franco marcharam sem oposição sobre Barcelona. Mas isto não ocorreu ao movimento anarquista, que renasceu na última década como a gênese do fogo de sua própria transformação.
A Segunda Guerra Mundial, que se seguiu à vitória de Franco, completou o colapso do movimento anarquista internacional. O processo iniciou em 1918. Na Rússia, depois da Revolução de Outubro de 1917, os bolcheviques consideravam os anarquistas seus principais rivais e eliminaram-nos. Mas isto se deu apenas depois do conflito em que grandes áreas da Ucrânia se tornaram um tipo de comunidade anarquista dos camponeses sob o líder Nestor Makhno, que lutou brilhantemente contra os Brancos e Vermelhos, mas finalmente fugiu para a Europa Ocidental para escapar à destruição das legiões de Trotski. O advento do fascismo na Itália e do nazismo na Alemanha significou o fim do movimento anarquista em ambos os países, e quando o Reichstag completou suas conquistas na Segunda Guerra Mundial, os únicos anarquistas livres e ativos estavam na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Suíça e em países latino-americanos mais liberais, dos quais o México era o mais importante. Todos os países onde havia existido um movimento anarquista de massa, como Rússia, França, Itália e Espanha, estavam sob regime totalitário em 1942.
Nesta época, surgiu uma nova situação na história anarquista. Durante a Segunda Guerra, foi nos países de língua inglesa que o anarquismo demonstrou a maior vitalidade, e a tradição foi interpretada de uma forma totalmente nova. O estímulo não veio apenas dos refugiados espanhóis, russos e italianos que representavam o movimento criado por Proudhon, Bakunin e Kropotkin. Veio também de escritores originados do movimento modernista, que conheceram o anarquismo através de Oscar Wilde, William Morris e William Godwin.
Essa tendência do anarquismo, de alojar-se durante a década de 40 como uma semente nas opiniões dos intelectuais de língua inglesa, levou a interessantes desenvolvimentos teóricos, principalmente no campo da ciência e da educação. Desde que Kropotkin modificou a teoria da evolução, ao publicar Auxílio mútuo, os pensadores libertários tentaram relacionar essa teoria às ciências conhecidas pelo homem. Durante o século XX, o papel ocupado pela biologia nas pesquisas de Kropotkin e seus companheiros, como Eliseé e Elie Reclus, foi substituído pela psicologia. Antes de tornar-se o improvável guru da sexologia genética, Alex Comfort escreveu um tratado anarquista sobre a psicologia do poder, Autoridade e delinqüência. Os ensinamentos de Erich Fromm, especialmente em O medo da liberdade, influenciaram os anarquistas em 1940, assim como a herética doutrina freudiana de Wilhelm Reich, que relacionava a repressão política com a psicologia e buscou na neurose as origens do poder coercitivo. O escritor anarquista mais influenciado pela teoria psicológica moderna foi Herbert Read, que adicionou às teorias de Freud, Adler e especialmente às de Jung outra característica concepção da teoria anarquista de 1940: o reconhecimento da necessidade de um novo tipo de educação que habilitaria o homem a aceitar e preservar a liberdade.
Herbert Read sustentava que o sistema educacional como existia, com sua ênfase ao estudo meramente acadêmico, preparava os homens à obediência, não para a liberdade. Em seus livros, como Educação através da arte e Educação de homens livres, argumentava que as escolas deviam ser modificadas para educar os sentidos antes de atingirem a mente. A personalidade harmônica, que resulta da educação através da arte, não teria apenas vida individual mais equilibrada, mas também atingiria com o menor distúrbio possível a pacífica transformação da sociedade que os anarquistas sempre sonharam; uma transformação em que as pessoas que estivessem em paz consigo mesmas e, portanto, em paz com os outros pudessem fazer com que a igualdade e a fraternidade fossem compatíveis com a liberdade.
Quando terminou a guerra, em 1945, e países como a Itália e a França foram libertados, houve uma sacudida no movimento que Bakunin havia criado. Os velhos anarquistas se encontraram novamente, surgiu uma receosa conexão entre eles e os intelectuais que desenvolveram a teoria anarquista durante a década de 40. Houve congressos internacionais; mas o de Berna, em 1946, foi bastante estranho, com alguns velhos e jovens reunindo-se no túmulo de Bakunin para rezar e tocar Mozart em sua memória e sonhar em repetir sua façanha.
A característica marcante do neo-anarquismo que emergiu na Inglaterra e nos Estados Unidos no pós-guerra, assim como outros movimentos de protesto, foi a de que representou, principalmente, uma tendência entre os jovens e especialmente dos jovens da classe média. Em 1962, no começo da ascensão, o jornal anarquista britânico Freedom realizou uma pesquisa das profissões e das origens de seus leitores. Movimentos anarquistas passados compunham-se principalmente de artistas e camponeses, com poucos líderes intelectuais recrutados na inteligentsia da classe média e alta. A pesquisa do Freedom revelou que, na Inglaterra dos anos 60, apenas 15% dos anarquistas dispostos a responder questões sobre si mesmos pertenciam a tradicionais grupos de camponeses e operários; dos restantes 85%, o maior grupo consistia de professores e estudantes e havia ainda muitos arquitetos, médicos, jornalistas e pessoas trabalhando independentemente como artistas ou artesãos. Ainda mais significantes eram as diferenças de classe entre os jovens. 45% dos leitores acima dos sessenta anos eram trabalhadores manuais e 23% destes por volta dos trinta e 10% destes por volta dos vinte. Proporções bastante similares existem nos movimentos anarquistas na maioria dos países do Ocidente. O novo libertarismo tem sido essencialmente uma revolta, não dos menos privilegiados e certamente não dos trabalhadores habilitados, os quais estão ocupados em defender suas recentes vitórias quanto ao padrão de vida, mas sim dos privilegiados que vêem a futilidade da riqueza como uma meta.
Sem dúvida, um dos fatores que tem tornado o anarquismo popular entre os jovens é a sua oposição às culturas industriais tecnocráticas e crescentemente centralizadoras da Europa Ocidental, da América do Norte, do Japão e da Rússia. Neste contexto, uma importante figura moderadora, apesar de os anarquistas ortodoxos nunca a terem aceitado, foi Aldous Huxley. O pacifismo de Huxley e sua visão da iminência de uma explosão demográfica, da destruição ecológica e da manipulação psicológica, tudo isto reunido numa visão social que, de várias formas, antecipou a preocupação do neo-anarquismo durante os anos 60 e 70. Já em 1930, em Admirável mundo novo, Huxley apresentou a primeira advertência sobre o tipo de alienação e de existência materialista produzido numa sociedade dominada pela tecnologia. No prefácio da edição de 1946 de seu livro, Huxley declarou que os perigos implícitos na tendência da vida moderna só poderiam ser rechaçados por meio de uma mudança radical para a descentralização e a simplificação em termos econômicos e formas políticas que, bem como ele mesmo coloca, poderiam ser “kropotkinescas e cooperativas”. Em livros anteriores, e especialmente em seu romance After Many a Summer, Huxley ampliou sua aceitação da crítica anarquista à ordem vigente e foi amplamente através desses seus últimos trabalhos, freqüentemente ensinados nas universidades inglesas, que a atitude libertária foi transmitida à sua consciência por uma regeneração do meio.
O movimento no qual as idéias anarquistas talvez salientaram-se mais dramaticamente nos últimos anos foi o de Paris, na insurreição de 1968. Foi uma questão amplamente espontânea, na qual os líderes dos partidos de esquerda e dos sindicatos tinham pouco controle, onde se realizou algo semelhante ao antigo esquema anarquista por uma revolução libertadora. Os estudantes ocuparam as universidades, hastearam a bandeira negra dos anarquistas no Bourse e incitaram os trabalhadores à greve e se reuniram em frente às fábricas. Por alguns dias o poderio de De Gaulle
– e o nacionalismo que representava – ficou pendurado na balança; só mesmo um acordo feito com seus inimigos no exército fez com que seu domínio se mantivesse por tempo suficiente para que as forças conservadoras da sociedade francesa pudessem se reafirmar. Os acontecimentos em Paris demonstraram, assim como os similares em Atenas, Bangkok e outros lugares, que, apesar de suas sofisticadas técnicas de manter o poder, governos modernos são quase tão vulneráveis como seus predecessores, e, de certa forma, ainda mais vulneráveis, já que a sociedade contemporânea tornou-se envolvida numa máquina burocrática com uma estrutura de tal forma encadeada que mesmo uma pequena falha em seu funcionamento terá efeitos enormes. Nessas circunstâncias, a rebelião torna-se quase um pequeno Estado, dominado por superpoderes nucleares. Sua habilidade para desequilibrar a intrincada balança lhe confere certas vantagens, e não há dúvida alguma de que, devido à dinâmica da situação, os radicais contemporâneos têm agido no sentido de modificar a postura social e induzido a retraimentos por parte das autoridades, o que não poderia ter ocorrido nem mesmo há uma década. Porém, devemos ter em mente que esses recuos são bastante táticos. Em nenhum lugar, nos últimos anos, uma rebelião espontânea resultou numa mudança da atual estrutura de poder. Os governos podem ter mudado, mas o padrão de autoridade não tem sido fundamentalmente rompido.
A recente popularidade do anarquismo tem se dado, em parte, devido a uma relação generalizada contra o monolítico bem-estar social. Algumas das propostas libertárias, assim como o grande envolvimento dos trabalhadores no controle das indústrias e os decisivos pronunciamentos das pessoas nas questões que as afetam, local e pessoalmente, começaram a tomar forma nos anos 60, como parte de uma virada em direção a uma democracia de participação.
Até agora, de fato, tem havido pouco progresso no uso dos conceitos anarquistas de uma maior organização da sociedade, e é aqui que os críticos sentem que estão em chão mais firme, quando falam da dificuldade de manipular a indústria de massa e as massas populacionais, por métodos anarquistas. Mais ainda, não é impossível que a tecnologia possa oferecer alguns dos meios para este fim. A tecnologia por si só é neutra e, como Lewis Munford demonstrou muito tempo atrás em Técnicas e civilização, não há nada que afirme que uma sociedade tecnologicamente desenvolvida precise ser tanto centralizada como autoritária ou ecologicamente destrutiva. E é possível, para dar um exemplo, que chegue uma época em que o povo, no controle de sua tecnologia, possa usar as comunicações eletrônicas para informar-se de todos os aspectos de uma questão pública e usar os mesmos meios para tornar conhecidos e eficazes os seus desejos, sem intermediários. Desse modo, a instituição do plebiscito, que por ser hoje tão mal feita é raramente usada, poderia ser aplicada a todas as decisões importantes, e os plebiscitos poderiam ser ajustados às particularidades efetivamente afetadas por uma decisão. A democracia deve então ser direta e ativa novamente, como fora antes, pelo menos para os cidadãos, na antiga Atenas. E, se uma democracia eficaz, participatória e direta não pode ser a sociedade naturalmente ordenada da anarquia, ela poderia ainda representar um passo histórico nessa direção.
Tradução: Betina Becker
Este texto é uma seleção de trechos de uma longa introdução escrita por George Woodcock para seu livro The Anarchist Reader’s, que reúne alguns textos clássicos da doutrina anarquista. Woodcock é considerado o melhor especialista nos Estados Unidos no assunto.
* Guy Fawkes foi um católico inglês que viveu no início do século XVI. Revoltado contra o controle dos protestantes, tentou explodir o Parlamento usando vários barris de pólvora. Não conseguiu seu intento, foi preso, julgado, condenado e enforcado. Hoje o “Dia de Guy Fawkes” é ocasião para acender fogueiras e soltar foguetes, festejando uma traição considerada clássica, mesmo para um inglês.

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