Anarquia/Anarky – O Anti-Herói Anarco-Objetivista

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Numa época em que os personagens de histórias em quadrinhos jamais foram tão populares, especialmente graças às inúmeras adaptações que se tornaram frequentes nos cinemas, um deles se destaca pela sua declarada visão política: Anarquia/Anarky – O Anti-Herói Anarco-Objetivista, ateu, autônimo, filantropo e fugitivo da lei.

Criado por Alan Grant e Norm Breyfogle, Anarquia é o único anti-herói da editora DC Comics a defender abertamente o anarquismo e o pós-objetivismo. A inspiração mais evidente do personagem foi retirada da HQ “V de Vingança”, do escritor Alan Moore e David Loyde.

O Personagem

A primeira aparição de Anarquia nas HQs se deu em Gotham City, na véspera da cerimônia de um novo projeto da cidade junto a países europeus, para dar casas e habitação de baixo custo a pessoas humildes, ajudando desta maneira Gotham a atrair investidores com esse ato de caridade. Anarquia deixou sua marca recorrendo à destruição das casas com o fim de assustar os investidores internacionais. Quando Batman aparece para detê-lo, ele foge.

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A verdadeira identidade de Anarquia é Lonnie Machin, um menor de idade que sempre foi incrivelmente inteligente e independente, tendo aptidão natural para a computação e a leitura, interessando especialmente por filosofia e política. Desde os 11 anos ele visitava a biblioteca, onde começou a investigar a história e a política moderna da fictícia nação de terceiro mundo onde seu amigo Xuasus, também uma criança, morava. Ele descobre como muitos países foram destruídos por guerras e pela fome, especialmente por conta dos políticos. Lonnie sente então que o mesmo está ocorrendo no seu país.

Lonnie viveu basicamente em estabelecimentos correcionais para jovens delinquentes, mas não permaneceu lá por muito tempo. Alguns anos depois, ele criou, a Fundação Anarquista, através da qual começou a divulgar e vender suas ideias políticas e filosóficas pela internet. O negócio prosperou e Lonnie acumulou com o tempo, após fundar sua empresa “Anarco”, uma fortuna de quase 200 milhões de dólares.

Após se tornar milionário, Lonnie decide que precisa fazer algo por seu país, dando um exemplo ao mundo, e mostrando a superioridade do anarquismo face ao estatismo. É então que ele cria o seu alter ego Anarquia, o anti-herói que protegerá os “produtores” (cidadãos pacíficos que geram o bem estar) dos “parasitas” (todos aqueles que tentam viver as custas dos demais).

Rapidamente, seu mais importante rival nessa luta torna-se o Batman. Nas palavras de Anarquia: “Batman está equivocado. Ele luta contra as consequências do crime, mas não suas causas. Ele lida com casos individuais… mas não consegue ver o quadro maior.” Mesmo assim, é inegável nas HQs como Anarquia admira o Morcego, apesar de discordar dele.

Apesar de ter surgido como um arquirrival do Batman, Anarquia foi aceito pouco a pouco como um anti-herói, vindo a atuar junto com outros super-heróis, inclusive na Liga da Justiça. Mesmo assim, suas crenças políticas e filosóficas o tornam ao mesmo tempo inimigo dos vilões clássicos como dos governos, em especial dos EUA e dos países europeus, que o consideram uma ameaça.

Evolução Política: Do coletivismo ao individualismo objetivista

Assim como os demais heróis de histórias em quadrinhos, Anarquia combate a criminalidade. Mas, diferente daqueles, ele não se limita a luta contra o que denomina de “criminosos privados”, se focando especialmente contra o maior de todos os bandidos: o Estado. Como Anarquia explica: “Qual a diferença entre a democracia e a Máfia? Numa democracia, se pode escolher os chefes do bando que vão controlar sua vida; já na Máfia, tomam somente 10% dos seus ganhos!”

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Esta postura coloca Anarquia frequentemente em lado oposto ao de outros heróis da DC, em especial Batman e Lanterna Verde, e os vilões clássicos da DC, como Darkseid e o Coringa. Com exceção do Batman, quase nenhum dos seus inimigos desconfia que por trás da máscara se esconde um gênio adolescente.

Um aspecto interessante é que quando Anarquia aparece pela primeira vez, as ideias que expressava eram próximas as do anarco-comunismo, atacando o capitalismo e violando sistematicamente os direitos individuais (um caso emblemático é quando ele eletrocuta um “criminoso” que traficava drogas).

Contudo, em certo momento da aparição inicial do personagem até o final do século XX, o escritor Alan Grant, que também era anarquista, abraçou o ideário Neo-Tech, um ramo moderno da filosofia objetivista, que tem como característica ser fortemente anti-estado.

Foi a partir das minisséries intituladas “Anarky”, que o personagem começa a demonstrar suas influências libertárias, objetivista e favoráveis ao livre mercado. Justamente por isso, Anarquia se tornou um dos poucos personagens abertamente libertários -e o único Anarquista- das histórias em quadrinhos.

Essa mudança política no personagem acabou sendo representada por Grant na histórias dando um toque de ingenuidade a Anarquia, mesmo este sendo brilhante. Segundo o autor explicou certa vez, foi esta a forma que ele encontrou de refletir no personagem as suas próprias mudanças filosóficas.

Conforme Grant afirmou: “Senti que ele era o personagem perfeito para expressar minha filosofia Neo-Tech, porque ele é humano, não tem poderes especiais, o seu único poder é o poder de sua própria consciência racional.”

Sobre o Criador do Personagem

Em 2009, o site brasileiro Omelete entrevistou o escritor e roteirista Alan Grant, criador de Anarquia. Como não poderia deixar de ser, o personagem acabou sendo abordado. Segue abaixo os trechos da entrevista onde Grant comenta sobre seu personagem favorito e autobiográfico:

E o que aconteceu com Anarky [título solo mensal do personagem Anarquia, que durou apenas oito edições]?

Acho que está no limbo dos quadrinhos. Quando a DC decidiu publicá-lo numa série mensal, eu e o desenhista Norm Breyfogle não fomos favoráveis. Como um anti-herói sem super-poderes, com uma atitude pouco convencional, Anarquia simplesmente não tinha o público forte necessário para manter um gibi mensal. Norm e eu queríamos que a personagem tivesse uma mini-série, e talvez um especial, a cada ano. Mas o editor disse que, se recusássemos, ele encontraria outra dupla para fazer a revista. Só aceitamos, porque éramos os criadores do personagem.

Contudo, fãs de quadrinhos americanos em geral não gostam muito de personagens sem poderes (exceto Batman, claro). Sempre considerei Anarquia como uma das minhas criações mais populares entre fãs de idioma espanhol; na Argentina, Espanha, México e Chile, Anarquia é muito apreciado.

Você criou novos roteiros para a série de Anarquia, ou foram todas idéias que tinha para mini-séries e especiais?

Uma mistura dos dois. A primeira história traria a Liga da Justiça, não porque eu os escolhi, mas porque a DC estava tão preocupada com vendas baixas que insistiram em ter “estrelas convidadas”. Várias edições de Anarky foram escritas e desenhadas, mas não foram publicadas – inclusive uma em que Anarquia mostra ao Super-Homem o que acontece quando o governo americano vende armas a ditaduras estrangeiras como, na época, a Indonésia. Norm Breyfogle e eu escrevemos juntos textos sobre “A Farewell to Anarky” [“Um adeus a Anarquia”] que deveriam aparecer na última edição. Não apareceram. Não sei por que, mas suspeito que a DC ficou medo de publicar as idéias políticas que estávamos expressando, ou algo parecido. Talvez a verdade seja bem menos interessante – quem sabe venderam todas as páginas para propaganda. Contudo, posso dizer que tive mais interferência editorial nas oito edições de Anarky do que em todos meus 21 anos nos quadrinhos juntos.

No que concerne às opiniões políticas, o Anarquia é um reflexo do seu criador?

A resposta curta é sim. Anarquia foi meu modo de expressar meu total desgosto por todos sistemas políticos atualmente reconhecidos, inclusive a democracia. Eu lhe faria uma referência ao trabalho do cientista e filósofo americano Frank Wallace, que foi uma das primeiras pessoas na história da humanidade a identificar a raiz de quase todos os problemas no mundo. Contudo, a grande maioria dos abastados americanos (e europeus – não é um preconceito contra os EUA) não tem interesse algum em ouvir a verdade sobre sua situação.

Conclusão

Anarquia pode ser definido como o seguidor de uma filosofia que valoriza o conhecimento lógico, o uso da tecnologia para melhorar a vida humana e a defesa de um ideal de anarquia onde os indivíduos sejam totalmente soberanos. Sem oprimidos, Nem Opressores!!

Seus principais inimigos, filosoficamente falando, são a irracionalidade e o crime (compreendido como a iniciação de agressão e a fraude), os quais, para o personagem, são encarnados em sua completude pelos Deuses (por isso é ateu) e o Estado (por isso é anarquista).

Referências

[1] Apesar de ter surgido como um vilão, Anarquia ganhou tanta simpatia dos leitores que seu status acabou sendo modificado com o tempo até se tornar um anti-herói.

[2] O nome da HQ onde Anarquia aparece pela primeira é Anarky in Gotham City, na Detective Comics Nº 608, de 1989. Depois dessa, Anarquia participou de mais três histórias: “Anarky: Tomorrow Belongs to Us”, “Anarky” e “Metamorphosis”.

[3] A entrevista completa com Alan Grant pode ser lida aqui (em inglês).

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