A Seca do Nordeste – Descaso Desumano

Não é de hoje que o fenômeno da SECA no Nordeste é notícia na mídia nacional, anunciando o drama de um povo que sofre com os problemas climáticos da região e a falta de compromisso do governo público.

Também não é de hoje que geólogos afirmam haver lençóis d’água sob o solo nordestino e que, se bem aproveitado, poderia resolver grande parte do estado de miséria deste povo, beneficiando a agricultura e aliviando a fome de todos.

Por que não há, pergunto, uma política pública dos governantes, mais enfática na administração dos recursos destinados à irrigação do solo nordestino, possibilitando acabar com essa triste condição humana? A quem interessa manter o fenômeno da estiagem, que não obstante ao El Niño, e mais recentemente La Niña, há décadas se tornou comum a associação da seca à miséria e à fome? E por último, por que é preferível manter a crença de um povo que vê apenas em “Deus” a única força capaz de tirá-los dessa triste situação?

Vejamos. Primeiro, não acredito que os governantes deste país não disponham de recursos para uma política de irrigação apropriada para o solo do Nordeste. Também não creio que haja “vista grossa” nas pesquisas que apontam soluções e/ou mecanismos que minimizem o problema da estiagem do fértil, porém, duro e seco solo nordestino, mesmo em período de recessão econômica.

Segundo, é notório que a manifestação dos políticos que fazem as leis em nosso país só volta sua atenção para os “miseráveis” da seca em época de campanhas eleitorais, num jogo sujo de troca de favores onde o voto, último mecanismo que dispomos para exercer nossa cidadania em um país que se diz democrático, é usado como recurso para galgar lugares no disputadíssimo espaço público municipal, estadual e federal.

Vence aquele que mais dinheiro tiver para a compra diversificada de voto.

As pessoas continuam esqueléticas, os recém nascidos ainda continuam tomando “água com açúcar” ao invés de leite, a água e consequentemente a agricultura ainda tornam-se um sonho a ser conquistado alhures. Lá o que se planta não é mais semente de milho, feijão, trigo ou soja, e sim, corpos.

Corpos de crianças mortas que não conseguiram sobreviver à fome.

Por fim, é mais fácil manter a crença dos nordestinos em um “Deus todo poderoso”, porém carrasco, vil, que condena mais de 15 milhões de brasileiros (segundo estimativas oficiais) a viverem em condições subhumanas, sob um sol escaldante e morrendo de fome. Ou é regra nutricional dar “água com açúcar” a um recém nascido que tem carência nutritiva, conforme mostrou a reportagem?

Ou então, será que é bem mais fácil sucumbir ao cúmulo do egoísmo e do self-interest, pagando caro por “fast foods” em lanchonetes MacDonalds ou ainda, deixar a geração shopping center de “mauricinhos” e “patricinhas” em seus discursos e gastos supérfluos a solta, sem no entanto, ensinar-lhes o que significa solidariedade humana, e fazer-lhes reconhecer como um de “nós” um número cada vez maior de indivíduos?

Indo direto ao assunto: enquanto herdeiros da classe média burguesa, qual o verdadeiro sentido de sujeito, solidariedade e ser-humano temos ensinado aos nossos filhos?

Para onde vamos caminhar em um país onde o culto ao narcisismo faz do individualismo apanágio das relações humanas? Onde solidariedade e amor ao próximo são ideários utópicos a serem alcançados?

Diferentemente dos nossos irmãos em humanidade na África do Sul, a fome aqui tem outros precedentes.

Lá, a fome tem como sinônimo a pobreza e a falta de recursos do governo. Aqui, a fome tem como sinônimo o cinismo e a falta de consciência e compromisso com a cidadania de alguns políticos, que tem transformado homens e mulheres em saqueadores, ou melhor, em animais irracionais, desesperados com o seu estado de comiseração humana, em busca de uma forma de sobrevivência.

Acostumamo-nos a ver os “mortos-vivos” da África do Sul como seres de um terrível filme de horror, mas não nos compadecemos deles pois não conseguimos nos ver em seus corpos cadavéricos. Aqui, o dever do reconhecimento ao outro como um de nós é no mínimo um dever ético e moral, para não dizer solidário.

Para não fazermos de conta que o “espetáculo” que assistimos nos telejornais, sejam efeitos ilusionista de produções hollywoodianas.

Sofremos uma espécie de desencanto político, moral, ético e ideológico dos dirigentes de nossos país. Porém, insistimos em não considerarmos os nossos irmãos nordestinos e miseráveis da seca como um de nós, deixando para os outros resolverem o problema da fome.

Só que estes “outros” somos nós, e enquanto existir um desinteresse político e econômico de muitos, as frentes de emergência ou cestas básicas de alimentos são meios encontrados para aliviar a dor da fome do povo do nordeste. Mas o nordestino não quer esmola. Ele quer trabalho. Ele quer justiça social. Ele quer um solo irrigado que possibilite retirar dele o alimento da sua sobrevivência. Ele não quer frentes de emergências, ele quer uma política sólida que transforme o duro e seco solo nordestino em um produtivo campo agrícola. Mas enquanto existir interesses escusos, a indústria da seca vai sempre ser usada para solavancar políticos a cargos públicos e aumentar o patrimônio de empresários corruptos.

Um dia, quem sabe, será possível que nossos filhos e netos possam encontrar um paraíso perdido no Nordeste. Onde crianças, jovens e adultos esqueléticos, desdentados e subnutridos, tenham sido personagens de uma triste história real de horror, e que, na esperança de um futuro promissor, governantes e empresários de todo o país, tenham aprendido o que é comprometimento com o povo, cidadania e solidariedade humana… aquela mesma que o Betinho tão bem tentou nos ensinar.

Fonte: Publicado em Catharsis – Revista de Saúde Mental, São Paulo – SP, N. 38, p. 30 – 31, julho de 2001.

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